Eleições e falta de visão da luta de classes fazem a esquerda adubar Bolsonaro na pandemia

A esquerda se recusa a fazer um discurso classista e, com isso, não atende os anseios do povo. O que fortalece Bolsonaro, que, por sua vez, vocaliza os desesperados com uma proposta enganosa.

Pesquisa simulando disputa presidencial divulgada em 6 de agosto pelo PoderData aponta que Jair Bolsonaro teria, no momento, 38% das intenções de votos, 24 p.p. a frente de Fernando Haddad, que soma 14%, e em terceiro lugar aparece Sérgio Moro com 10% da preferência. O Raiz da Questão entende que toda pesquisa eleitoral é um ato político com algum lastro de realidade ou, em outras palavras, não é porque a Folha de São Paulo ataca o Presidente que a esquerda deve acreditar que o DataFolha é sério. Mas, se não houver alguma conexão com a opinião das pessoas, ou se, por exemplo, a pesquisa apontar o João Amoêdo com 80%, a apuração ficará em evidente descrédito na opinião pública.

Se verdadeira, a soma das intenções de voto de Moro e Bolsonaro totalizam 48%, ou seja, se a eleição fosse hoje, a extrema-direita teria quase metade do eleitorado. E aí, muita gente da esquerda se pergunta: como? Como um sujeito que incentiva aglomerações desnecessárias, gasta quase nada do orçamento para combater o novo coronavírus, que incentiva o uso de um medicamento sem comprovação e que dá declarações infelizes dia após dia aparece liderando uma pesquisa com folga?

Muitos especialistas apontam o auxílio emergencial como a principal hipótese, afinal, o atual mandatário da República ganha em todas as classes, com exceção dos mais ricos, que antes eram os que mais o apoiavam. Vence, inclusive, entre os mais pobres, que antes eram os que mais o rejeitavam. Em outras palavras, Bolsonaro trocou o eleitorado de classe média-alta por um de classe baixa, o que não é novidade. Lula, que em 2002 tinha sua base eleitoral na classe média urbana, hoje tem seus votos nos rincões do país.

A hipótese do auxílio emergência é a mais óbvia para explicar o cenário político atual. Porém, o blogueiro que vos fala cogita uma outra possibilidade.

Coronavírus: Bolsonaro vendeu uma farsa, governadores e a esquerda caíram (de propósito).

Morrer sem renda ou doente, eis a falsa dicotomia imposta por Bolsonaro, conforme apontado no texto do blog em 7 de abril desse ano. A partir daí se iniciou uma batalha entre os contra e os a favor da quarentena.

O Presidente de República saiu com a estratégia de atacar tal medida, o que pode ser caracterizado como algo triplamente covarde. Primeiro, porque sabia que não tinha ingerência sobre a abertura ou fechamento de atividades não-essências, algo que cabia a governadores e prefeitos, logo, não seria de sua responsabilidade um número ainda maior de mortos por COVID-19, o que o colocava numa fácil posição de crítico. Se sua decisão fosse decisiva para um desastre ainda maior, é de se duvidar que sua postura seria a mesma. Segundo, porque ele sabia que não haveria uma melhora econômica significativa com uma possível volta do comércio, uma vez o Brasil é um país agroexportador e a recessão é global. Por fim, é muito fácil incentivar pessoas a saírem de suas casas quando se tem um atendimento medicinal de um chefe de estado, diferentemente do povo que é atendido no SUS ou nos caros e precários planos de saúde da classe média.

Por esse raciocínio, o leitor já pode perceber como o capitalismo é mesquinho. Reparem, o plano era que pessoas se aglomerassem em cinemas, lojas, estádios, casas noturnas, bares e restaurantes para que pipoqueiros, motoristas de aplicativo, lojistas e garçons tivessem emprego e renda, mesmo que isso lhes oferecessem um risco enorme de contrair uma doença altamente contagiosa.

Mas, mesmo nesse mar de mesquinhes, a classe trabalhadora precisa de dinheiro, mesmo que da forma mais primitiva. E é aí que a maioria dos prefeitos e governadores fizeram questão de não entender, ou não atender, melhor dizendo.

Os R$600,00 de auxílio emergencial, que o Presidente jogou contra em um primeiro momento e depois surfou na onda, é extremamente importante para saciar a fome de muita gente que ficou desamparada com a crise. Porém, o valor é completamente insuficiente para suprir as necessidades dos trabalhadores. Um exemplo claro disso é o fato do estado de São Paulo registrar uma ação de despejo a cada 22 minutos durante a pandemia, um recorde histórico.

O ‘ficar em casa’ foi extremamente importante para conter o avanço do vírus, mas tal ato atende apenas uma minúscula parte da população que pôde fazer home office ou que tinha algum tipo de reserva financeira. Para o resto, ou representou trabalhar sob enorme risco, ou o desemprego. E nenhuma autoridade apresentou uma mínima solução para resolver o problema. O resultado foi: o povo saiu às ruas para procurar seu sustento.

Pior, em São Paulo, Prefeito e Governador resolveram colocar a culpa … no próprio povo! Em meados de maio, Bruno Covas e João Doria sintetizaram toda a covardia bolsonarista em um ato só, decretaram um rodízio de automóveis na capital “dia sim, dia não”, o que acabou lotando o transporte público e gerou mais aglomerações.

A ideia era que, como a população não estava respeitando o isolamento social, seria necessária uma restrição maior. O que os dois tucanos não disseram era que o rodízio foi decretado em horário comercial, ou seja, as pessoas que deixaram seus lares não o faziam para o laser, mas sim para labutar e pagar suas contas.

A insensibilidade foi tamanha que em 12 de maio, no programa Brasil Urgente, Datena perguntou: “Se o cara não tiver grana, não tiver comida, o que o cara vai fazer preso dentro de casa?”, e a resposta do Doria foi simplesmente indecente: “…desculpa falar uma frase dura, mas ela é verdadeira, é melhor ficar confinado do que enterrado!”

Pergunta e resposta a partir dos 11:00 minutos

A extrema-direita se fortalece com uma esquerda que amansa seu discurso.

A estratégia dos governadores e prefeitos foi simplesmente a de administrar a crise, e não de resolvê-la. Funcionou da seguinte forma: apesar do número elevado de mortes e contaminados no Brasil, tal calamidade não foi o suficiente para provocar um colapso total na saúde. Por outro lado, apesar da gravíssima crise econômica, o R$600,00 foram suficientes para conter saques a supermercados e qualquer outro tipo de revolta popular mais grave.

Em suma, o objetivo era controlar a crise sem gastar muito, mas sem provocar colapso social. Para resolver de verdade o problema era preciso uma atitude mais assertiva, mexer no bolso da burguesia, algo que Doria, Wietzel, Maia e, inclusive, os governantes do PT e PCdoB eram incapazes de fazer. Os da direita por falta de propósito, e os da esquerda por falta de vontade.

Sendo assim, o povo desesperado caiu no colo do Bolsonaro por ser aquele que leva o falso mérito do auxílio emergencial, mas também porque vocalizou o sentimento dos desesperados que ainda torcem para a que a economia volte a funcionar como era antes.

Mas, notem, será mesmo que é preciso escolher entre ficar sem renda ou ficar doente? A resposta que deveria ser difundida nos 4 cantos pela esquerda é um sonoro não!

Raciocinem: o que era ou é preciso para sobreviver numa pandemia? De cara, alguns itens vem a mente: comida, máscara, álcool em gel, medicamentos, água, luz, casa, etc.

Daí vem alguns questionamentos, o primeiro é se o Brasil tinha ou tem insumos para produzir tudo isso? A resposta é sim. O segundo, se havia ou há meios de produção para se fabricar o que era necessário? Sim. Por fim, isso seria ou é suficiente para a abastecer toda a população? Claro, pois o país que mais produz alimentos e com maior quantidade de bens naturais pode proporcionar isso ao seu povo.

Além disso, havia e há mão-de-obra de sobra para elevar a produção, dado o enorme desemprego. Dessa forma, por que não concentrar toda a classe trabalhadora na produção de itens essenciais? Assim, aqueles que estavam ativos reduziriam significativamente sua carga de trabalho e se exporiam menos ao vírus, e os desempregados teriam renda com inflação baixa, já que, nessa proposta, poderia haver uma superoferta.

Em suma, por que não fizeram com que todos produzissem tudo para todos? Por que não fazer isso, ao invés de ficar esperando e apressando a volta a estádios de futebol ou de casas noturnas para que motoristas de aplicativo e pipoqueiros tenham uma renda baixíssima? A resposta esbarrava, claro, na propriedade privada dos meios de produção.

A estratégia da burguesia foi a de criar estagflação. Por regra, quanto menor a demanda, menor será o preço; porém, o setor produtivo adotou a estratégia de reduzir a produção, reduzindo seus custos e aumentando recessão. Assim, foi gerada outra lei da economia: quanto menor a oferta, maior a escassez, mais disputada será a mercadoria e maior será o preço. Com menos gastos para produzir e com maior valor de venda, mesmo com queda na demanda, os capitalistas mantiveram suas margens de lucro intactas em plena pandemia.

Um conjunto de propostas que não seriam aprovadas, mas que seria importante apresentá-las

Uma coisa que o leitor precisa ter em mente é que a política não é uma disputa de ideias, e sim uma correlação de forças. Aqui vão um conjunto de propostas que a esquerda deveria adotar no enfrentamento da pandemia, mas que provavelmente não seriam aprovadas, e, a seguir, você entenderá porque mesmo assim seria importante apresentá-las:

-Proibição da diminuição da produção: assim, nenhum item de necessidade básica estaria em falta ou seria inflacionado. E, dessa forma, o empresariado seria obrigado a manter seu quadro de funcionários;

-Redução da jornada de trabalho: Reduziria a exposição dos trabalhadores ativos ao coronavírus e, com a impossibilidade de reduzir a quantidade de bens fabricado, o patrão seria obrigado a contratar para suprir a demanda;

-Suspensão dos juros e aluguéis: Em um momento de grave crise, não é hora de banqueiro ou rentista lucrarem.

Observem que essas não são ideias que socializariam os meios de produção, apesar de ser essa a vontade do blogueiro que vos fala. Mas, muita gente dirá que tal conjunto de medidas jamais seria aprovado pelo congresso, e isso parece óbvio. Só que, se a esquerda conseguisse difundir um discurso radicalizado para a população, de que ela não é obrigada a escolher entre ficar sem renda ou se expor a um vírus, talvez isso trouxesse um medo para a burguesia, a de perder seus negócios no país por uma revolta popular, que a fizesse abrir mais os cofres. Ao invés dos R$600 de auxílio emergencial, esse valor poderia subir para R$1.000 ou 1.200, por exemplo.

Em 20 de agosto, meses após o início da pandemia, o Congresso Nacional derrubou o veto do Presidente e sancionou a lei que proibia os despejos até 30 de outubro. Se o povo estivesse radicalizado e mobilizado, talvez por medo, os políticos aprovassem essa medida antes e por mais tempo, já que a previsão de imunização por uma vacina só ocorra ano que vem.

Quem deveria levar essas propostas ao povo era a esquerda. Quem poderia acabar com a falsa dicotomia de Bolsonaro eram os movimentos e partidos populares. Mas, campo progressista preferiu outro caminho.

Frente Ampla, eleições municipais e nacos no Estado

Nesse momento de pandemia e crise, a esquerda tinha todos os elementos para fazer um grande movimento contra o Bolsonaro e suas políticas neoliberais. Mas, ao invés disso, preferiu fazer o discurso nobre da civilidade e em nome do ‘salvar vidas’. Marcelo Freixo foi mais além, participou do movimento #FicaMandetta, em defesa do ministro do DEM que, entre outras coisas, foi responsável por acabar com o programa ‘Mais Médicos’.

Mas a sanha centrista é ainda mais visível quando está sob o comando do PCdoB e da ala direita do PT com o apoio explícito a Rodrigo Maia, aquele que incrivelmente viu crime de responsabilidade de Dilma Rousseff, mas que não enxerga o mesmo de um Bolsonaro que homenageia o golpe de 64, flerta abertamente com a intervenção militar, entre muitas outras coisas.

A ideia de não radicalização começou logo no início da pandemia. O discurso do ‘Fica em casa’ suprimiu as manifestações pelo ‘Fora, Bolsonaro!’ marcadas para o dia 18 de março. Todavia, trabalhadores continuaram se aglomerando em trens e metrôs, ou simplesmente foram demitidos. Em seguida, vários atos foram esvaziados por políticos e personalidade pelo mesmo motivo, enquanto, ao mesmo tempo, Bolsonaro pregava abertamente o golpe de estado.

Por outro lado, o que se viu foram líderes de esquerda fazendo campanhas de Twitter, apoiando a Rede Globo contra os ataques do Presidente, dando suporte a um youtuber de cabelo rosa, fazendo abaixo-assinado com gente que apoio o golpe de 2016 e que deu suporte a Lava-Jato, participando da campanha verde-amarelista da Folha de SP, tentando formar coligações com pessoas altamente direitistas, etc.

Esse movimento da esquerda de não radicalizar e não se mobilizar tinha um norte, as eleições municipais, a frente ampla e espaços dentro do estado brasileiro. Ao não polarizar o discurso, os partidos do chamado campo progressista se vendem para a burguesia em troca de alianças nos pleitos de 2020, cargos nas diversas e esferas de poder.

Mas, acima de tudo, a recusa em polarizar atende um discurso pequeno burguês de classe média, o da ponderação e da civilidade. Só que a barbárie já está na falta de renda, no desalento e na desesperança do povo, o qual não se sente abraçado por um discurso progressista vazio e sem noção da luta de classes. O resultado é um povo que acaba se agarrando no discurso genocida de Bolsonaro.

A falsa dicotomia (morrer de fome ou de vírus) faz Lula e Doria fertilizarem a covarde política da morte de Bolsonaro

A esquerda caiu na dicotomia, ficar em casa ou trabalhar. O dilema deveria ser burguês, pois, se os trabalhadores tudo produzem, ainda mais na crise do coronavírus, a tudo lhes deve pertencer.


Antes de iniciar a análise, é preciso marcar posição. A proposta do isolamento vertical feita por Jair Bolsonaro é completamente assassina! Fazer com que jovens voltem às casas noturnas, pessoas à restaurantes ou consumidores aos shoppings para comprar roupas e capinhas de celulares é absolutamente surreal no pior sentido que a palavra possa ter. É a ideia de que gente se aglomere para que motoristas de aplicativo, garçons, ambulantes, vendedores, atendentes e outros profissionais não percam seus empregos e rendas, e, com isso, se exponham a uma doença que na Europa apresenta números trágicos.

A posição do chefe do executivo parece mais absurda ainda – e é – quando se observa o que a ciência diz, como os líderes mundiais se posicionam frente a crise, incluindo Trump, e, por incrível que pareça, o que o seu próprio Ministro da Saúde recomenda. A imprensa – que apoia as políticas de Moro e Guedes, mas é receosa frente ao potencial risco de quebra de estabilidade institucional que o bolsonarismo representa – aproveita o descalabro que é a flexibilização da quarentena para, de forma justa, mesmo com objetivos mesquinhos, malhar publicamente o Presidente da República.

Tudo indica que o líder brasileiro da extrema-direita sai extremamente enfraquecido dessa crise, certo? Errado! Ele está prontíssimo para usar uma cartada digna de um covarde, adjetivo esse que pode ser usado para descrever sua postura ao longo da história, sobretudo nesta crise. Mas, para entender melhor é preciso olhar para um aspecto que a esquerda brasileira se recusa a encarar.

Voltar ao trabalho vs. Ficar em casa, a dicotomia imposta para manter o capitalismo alicerçado

Basta juntar dois neurônios para entender que o fim do distanciamento não melhorará a situação econômica, ou você acha que mesmo a ala mais radical bolsonarista não terá o pé atrás para voltar a frequentar bares e cinemas? Pior, liberar a população do isolamento horizontal significa uma pilha de corpos, pois, obviamente, o nosso frágil sistema de saúde não aguentará a altíssima demanda provocada pelo fácil contágio que o novo coronavírus provoca. Bolsonaro sabe disso, afinal ele, apesar de boçal, teve um mínimo de inteligência para ganhar a eleição presidencial de 2018.

Por outro lado, a quarentena, além de provocar um crise social sem precedente, é uma farsa. Falsa porque os trabalhadores continuam lotando trens, metrôs e ônibus, outros perdem o emprego e muitos autônomos ficam sem renda. A campanha “fique em casa” só é válido para uma classe média que pode fazer home office ou que tenha uma reserva financeira que a permita não trabalhar.

A pergunta é: o que fazer?

A política de Paulo Guedes de liberar dinheiro aos bancos é insuficiente. As instituições financeiras já aumentaram juros de empréstimos, diminuíram o número de parcelas e prazos de pagamentos dos financiamentos. Os R$600, que podem virar R$1.200, que seria dado aos autônomos parece demorar muito para chegar, agravado pelo fato do Presidente, que já cometeu 12 crimes de responsabilidade, ter medo de cometer mais um ao liberar essa verba que, mesmo assim, será insignificante perto do tamanho da crise.

Além disso, uma política neoliberal é inócua para resolver um problema dessa magnitude. Privatizar o que? Cortar gastos de onde? Isso com certeza agravaria ainda mais o caos, uma vez que tiraria dinheiro do mercado interno, piorando ainda mais a recessão.

A maneira de recuperar a economia, segundo a grande burguesia, será mesmo o velho keynesianismo. Os grande empresários parecem estar convencido de que só um projeto desenvolvimentista poderá tirar o país do buraco em que está se afundando cada dia mais. Guilherme Benchimol, CEO da XP, concluiu que, se não houver um novo Plano Marshal, o Brasil corre o risco de viver uma profunda crise social.

Porém, não se engane, caro leitor, a ideia do Estado se endividar e se tornar um grande investidor é apenas o medo que o burguês tem de perder seus negócios frente a uma enorme revolta popular. O temor de que saques a supermercados – que, goste-se ou não, será inevitável – se torne uma rotina comum de quebra da propriedade privada assusta as elites brasileiras.

Além disso, um plano keynesiano se converterá no período pós-pandemia em uma labuta dobrada aos trabalhadores para pagar a enorme dívida estatal contraída. É melhor que haja um projeto desenvolvimentista do que deixar os pobres sucumbirem com as medidas neoliberais, porém isso ainda é muito longe do ideal e pode não resolver a questão.

Para solucionar, a esquerda deveria ter um horizonte de abordagem: a luta de classes. E precisa ter um objetivo claro de superação da crise: que os ricos paguem por ela. Aí, um direitista mais fanático argumentará: isto significa fuga de capitais, ou seja, os investidores tirando o dinheiro daqui. Na teoria racionalista, esse argumento está correto, na prática do mundo real, depende da luta política que se desenvolverá.

O Brasil oferece a elite nacional e internacional altas taxas de lucro, impostos baixos para as maiores rendas, vastos recursos naturais e mão-de-obra barata, porém pouco qualificada. Em resumo, o país é um fazendão altamente lucrativo e com uma mentalidade de acumulação primitiva, ou, em outras palavra, um pensamento escravagista.

Observando a história recente, em 2004, o FMI, que nos anos 90 impunha aos países em desenvolvimento uma cartilha entreguista de privatizações e políticas monetárias e fiscais altamente restritivas, leia-se, de fome, foi extremamente benevolente com a Argentina que sofria uma crise econômica e social que poderia se converter em uma quebra institucional sem precedente, colocando em risco os negócios naquele país.

Se a burguesia cede quando está com medo, o objetivo da esquerda nesse momento deveria ser o de ameaçar ainda mais os capitalistas de perderem suas generosas fontes de renda, caso não venham a abrir mão de seus lucros durante a quarentena. Um programa radical de enfrentamento ao COVID-19 poderia se converter em proibição de demissões, suspenção de alugueis, juros, parcelas de dívidas, redução da jornada de trabalho e, até mesmo, intervenção do estado em unidades de fabricação de itens essenciais como álcool em gel, luvas, alimentos, máscaras, metalurgia para fabricação de respiradores, etc.

Uma vez que os brasileiros dispões de abundância de matéria-prima e mão de obra suficiente para prover o básico para a sobrevivência de todos, o que nos impede de dispensar alguns trabalhos não essenciais como o do churrasquinho na porta de estádio? Muito simples, a propriedade privada dos meios de produção.

Os grandes empresários se negam a aumentar a produção – e, com isso, a empregabilidade – de produtos essenciais. Preferem colocar o preço dessas mercadorias na estratosfera para que aqueles poucos que mantém renda possam comprar e manter as margens lucrativas de seus negócios.

Romper esta lógica burguesa significa transferir o dilema do povo, entre morrer de fome ou de doença, para a burguesia, o de deixar de lucrar agora ou correr o risco de perder os negócios no Brasil. Ao invés disso, os partidos de esquerda endossam a dicotomia de Bolsonaro, o que significa colocar as forças populares a reboque da extrema-direita, ou seja, viver da antítese dos absurdos incivilizados do bolsolavismo e não ter programa ou uma linha de atuação própria. Nesse clima de fazer o oposto aos seus inimigos é que Doria e Lula deram o combustível perfeito que o Presidente queria.

O fenômeno da extrema-direita potencialmente destrutivo na crise do novo coronavírus.

A democracia burguesa vive crises de tempos em tempos, pois não é capaz de resolver as demandas da população por causa da crise de superprodução. Com os aumentos exponencias da taxa de mais-valia, o capitalismo consegue produzir cada vez mais e melhores mercadorias com cada vez menos mão-de-obra. Com isso, o mercado fica inundado de produtos e sem renda do trabalho suficiente para consumi-los. O momento seguinte é um processo de desinvestimento dos capitalistas e aumento do processo recessivo, forçando a população a desprender mais esforço para obter seu padrão de vida.

Ao longo da história, a esquerda liberal, com seu discurso de redução das desigualdades sociais e dos serviços públicos, foi alternativa a direita tradicional, aquela que defende o livre-mercado e uma institucionalidade que proteja cada vez mais a propriedade privada. Mas, mesmo com crescimento da exploração e fincado em valores que sustentam a ordem, a república democrática apresenta uma série de direitos civis e políticos, crença na ciência e avanços civilizatórios.

Com o tempo, a esquerda foi ocupando o estado e, para isso, foi costurando acordos com a burguesia. Esse hábito domesticou os partidos populares que, para se manterem dentro da estrutura estatal, foram se flexibilizando ao ponto de não se saber mais a diferença – que existe – entre um partido conservador e um social-democrata. Exemplos disso foram vistos recentemente no PSOE espanhol, no Partido Socialista francês e, é claro, com o PT no Brasil.

A institucionalização fez com que estes partidos deixassem de defender o povo, e esse, por sua vez, deixou de ver nos esquerdistas a solução para as mazelas do sistema.

Eis que surge a extrema direita que, ao invés da dialética negativa, surge com a positiva. A solução dos ultradireitistas não combate os valores que sustentam a ordem, e sim os radicalizam. Por exemplo, reforçam ideias como as diferenças de gênero, orientação sexual, etnia e endossam os conceitos de nação e os valores morais.

Com a radicalização da direita, os avanços civilizatórios, como as liberdades civis e políticas, começam a ser prejudicadas, uma vez que essas são alívios dados ao caráter altamente repressivo do sistema. Em outras palavras, para os ultradireitistas, a ordem deve ser exercida sem nenhum tipo de conciliação.

Também some do radar a ciência, pois é apresenta como uma conspiração daqueles que defendem o main-stream contra o povo e seu desejo de exercer a moralidade. Abre-se então espaço para múltiplas teorias da conspiração que são absorvidas por parte da população, não pelo fato de apresentarem lastro sólido com a realidade, mas, sim, porque respondem desejos materiais objetivos, o de superar os problemas econômicos da democracia burguesa, e subjetivos, a da autoafirmação de suas crenças.

Em um cenário, como o do coronavírus, o afago de Lula e Doria só endossam a sensação de que há uma conspiração para acabar com o povo. Para quem não acompanhou, o petista publicou a seguinte mensagem em seu Twitter“Nossa obsessão agora tem que ser vencer o coronavírus. Chegamos ao ponto do Dória ter que mandar a PM invadir fábrica pra pegar máscara. A gente tem que reconhecer que quem tá fazendo o trabalho mais sério nessa crise são os governadores e os prefeitos”. O Governador paulista retweetou o ex-presidente e acrescentou: “Temos muitas diferenças. Mas agora não é hora de expor discordâncias. O vírus não escolhe ideologia nem partidos. O momento é de foco, serenidade e trabalho para ajudar a salvar o Brasil e os brasileiros.”

Pronto, estava montado o cenário perfeito para o bolsonarismo passar a mensagem que, mesmo antagônicos, PT e PSDB se juntaram para derrubar aquele que é o antissistema, para praticar imoralidades em nome da ciência. Já a esquerda liberal olha para tudo isso e enxerga um pacto civilizatório frente a barbárie. Nem uma coisa e nem outra.

É sempre importante lembrar aos esquerdistas que o tucano em questão já aplaudiu a MP927, que permitia os patrões ficarem 4 meses sem pagar salário diante da necessidade de suspensão das atividades por conta da pandemia. Doria não tem uma resposta concreta para a crise social, ele apenas cumpre o papel de manter a doença controlada em seu Estado, e não abre mão da política neoliberal, tampouco de não mexer na propriedade privada dos meios de produção e muito menos de sacrificar os dividendos da classe alta.

E a esquerda desestruturada, sem uma visão sólida da luta de classe, na ânsia de ser antagonista do Bolsonaro se une com aquele que atacou agressivamente os movimentos populares, relativizou o massacre da PM em Paraisópolis, já ignorou e debochou dos especialista e que fechou sua campanha em 2018 com o ‘BolsoDoria’.

Bolsonaro tem chance de ser bem sucedido na sua proposta assassina e em sua política covarde

Bolsonaro, por sua vez, poderia lançar mão de um decreto que derrubasse as medidas da quarentena, mesmo que depois isso fosse cassado no STF ou no parlamento. Seria uma demonstração de atitude para atender os autônomos e desempregado. Mas, não, prefere atacar governadores e prefeitos porque sabe que essa medida seria inócua e empilharia caixões pelo país. Também poderia abrir os cofres públicos para conter a miséria provocada, entretanto, sua covardia e apego aos donos da Havan e do Madero, a burguesia pé-de-chinelo, o faz receitar cloroquina na porta do palácio. E, já que não gosta desse papo de recomendações da OMS, poderia demitir Mandetta, mas seu medo frente a popularidade do ministro o deixa na posição de rezar para que ele se demita.

Todavia, não se engane, a crise social provocada por esse novo vírus, aos poucos, poderá dar a narrativa ao Presidente, a de que ele está certo e o resto do mundo civilizado, errado. Logo, poderá se consolidar como o combatente dos universitários arrogantes para defender seu povo de um inimigo imaginário, o globalismo. É uma postura arriscada, mas que, dependendo dos ânimos populares, pode dar bons frutos para suas pretensões políticas.

Infelizmente, a esquerda caiu na dicotomia, morrer de fome ou de vírus. Deveria apresentar um programa radical, pois, se os trabalhadores tudo produzem, ainda mais no momento de crise sanitária e econômica, tudo lhes deve pertencer.

Os que acreditam em marxismo cultural não têm moral para criticar o nazismo de Alvim. Exemplos: MBL, Olavo de Carvalho e Brasil Paralelo.

Direita, esquerda, centro, imprensa e boa parte do povo brasileiro manifestaram profundo horror com o pronunciamento do ex-secretário da cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim. O vídeo divulgado escandalizava uma série de elementos que indicavam uma estética nazista, com a música Lohengrin de Richard Wagner ao fundo- a preferida de Hitler, a Cruz de Caravaca e, mais impactante, o plágio feito de um trecho de um discurso de Joseph Goebels, ministro da propaganda do regime nazista.

Indignação, qualquer um pode manifestar, porém, com sinceridade, nem todos. Ousa-se dizer que se não fosse a música de Wagner e o plágio do Goebels, ou melhor, se não fosse apenas a referência ao ex-ministro da propaganda de Hitler no texto, a pecha de nazista não colaria no ex-secretário e o mesmo continuaria no cargo.

A extrema direita, que em um primeiro momento correu para “passar pano” no caso, após ver que o vídeo divulgado ajudaria ainda mais a colar o justo rótulo de protofascista no Presidente da República, se apressou para repudiar aquilo e pedir a cabeça do titular da pasta. Mas isso só depois que o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, desconfiou publicamente da sanidade mental do secretário.

Entretanto, no dia anterior, Roberto Alvim e Jair Bolsonaro protagonizaram uma live no Facebook, na qual anunciavam com entusiasmo o tal Plano Nacional de Cultura que é baseado, sim, numa ideia fascista de arte, aquela que reforça os valores e heróis nacionais, conforme dito no discurso durante o plágio de Goebels, e repudia a contestação na manifestação artística, assim como o nazismo fazia com a arte moderna.

Se um dia, Alvim é crucificado pela direita, no anterior, ele diz, “Presidente, o senhor sabe de uma coisa? A gente vai lançar um edital para cinema… vai ter também categorias sobre filmes da independência do Brasil e sobre grandes figuras históricas brasileiras. Então, tentando criar aí um cinema sadio, ligado aos nosso valores, aos nossos princípios e alinhado com essa ideia de conservadorismo em arte que, na verdade, é uma arte que dignifica o ser humano.” Estão nessa fala do ex-secretário- que, repetindo, é anterior ao pronunciamento polêmico e foi feito na live do Facebook – elementos nazifascistas como o retorno às tradições, a pureza, a exaltação aos heróis e a exclusão de qualquer coisa feita para minorias ou que contenha elementos da dita subversão.

Em outras palavras, para extrema-direita, o problema é parecer nazista, e não ser um. Houve, no bolsonarismo, quem sugerisse a música de Villa-Lobos ou Carlos Gomes ao invés de Wagner, ou a imagem de Padre Cícero ao invés da Cruz de Caravaca. Ou seja, pediram um fascismo, só que não do tipo alemão, e, sim, brasileiro. Só faltaram clamar por um “Anauê” no final.

Mas, o fato é que toda essa viagem ideológica maluca não vem do nada, e sim de outra tese protofascista, a do Marxismo Cultural. Segundo essa teoria da conspiração, vinda de um leitura torta de Gramsci e da escola de Frankfurt, a esquerda mudou o agente revolucionário do proletariado para as minorias e introduziu o multiculturalismo e o politicamente correto para destruir a civilização judaico-cristã-ocidental. A ideia seria difundir pelos meios culturais (universidades, teatro, música e etc) pautas como o aborto, o feminismo e o que eles chamam de gayzismo, para assim destruir a família e, com isso, a sociedade. Com a propagação da agenda progressista, haveria uma banalização de um senso crítico, o que geraria o chamado esquerdista orgânico, aquele que é de esquerda sem saber o que é. A conclusão para a turma é que a desvinculação dos indivíduos aos valores morais consagrados está fazendo com que a coletividade se degenere, abrindo assim espaço para um processo revolucionário.

Essa teoria é muito parecida, até no nome, com o Bolchevismo Cultural, difundido nos anos 20 e 30 pelo nazismo. Se a tese do marxismo cultural deturpa o gramscismo, a sua versão nazista vem dos Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação documental que denuncia suposta conspiração judia e maçônica para dominar o mundo. A tese, segundo Hitler em Mein Kampf, é praticamente a mesma defendida pelos olavistas, que a cultura que ele dizia ser bolchevique era “uma doença que enfraqueceria os alemães perante as garras dos judeus”, e que tinha o objetivo implantar o marxismo para destruir os valores da sociedade alemã, e o instrumento para tal seria a arte moderna, ou a “arte bolchevique”.

As coincidência não param por aí. Segundo os adeptos do Marxismo Cultural, tal movimento é patrocinado por globalistas, grupo formado especialmente por banqueiros, como George Soros, com o intuito de destruir a família e os valores patrióticos para instituir uma governança global. Já no Bolchevismo Cultural, os nazistas acreditavam que era uma tentativa dos banqueiros judeus dominarem a Alemanha.

Por outro lado, na década de 30, a extrema-direita alemã entendia que a expansão do judaísmo destruiria a cultura nacional, e os ultra direitistas brasileiros acreditam que o multiculturalismo introduz o islamismo, que acaba com o cristianismo e destrói o Ocidente pouco a pouco.

Explicações para fenômenos sociais também entrelaçam olavistas e nazistas. Berlim, durante a República de Weimar, era uma cidade falida que atraia muitos turistas por conta demasiada prostituição que lá havia. Os seguidores da ideologia de Hitler acreditavam que aquilo era resultado direto da ação dos judeus. Já para o bolsonarismo, os marxistas culturais propagaram a liberdade sexual através da cultura dos anos 60, e, como resultado, temos uma sociedade depravada e que se auto degenera a cada dia. Tudo muito alinhado com o discurso de Dante Mantovani, presidente da Funarte e discípulo de Olavo de Carvalho, que afirma que o rock leva ao aborto que leva ao satanismo.

Guerra cultural, alta cultura e repúdio à arte moderna: o antídoto de Alvim, Olavo, Bolsonaro e, também, dos nazistas para um inimigo imaginário.

Em 2016, na campanha à prefeitura do Rio de Janeiro, o candidato Flávio Bolsonaro disse ao RJTV que era preciso incentivar apenas a alta cultura. Os opositores não entenderam o que aquilo significava e zombaram do filho do hoje presidente. Mas aquela declaração se encaixa perfeitamente com o pronunciamento nazista de Roberto Alvim.

Em sua apresentação, Alvim disse, “Quando a cultura adoece, o povo adoece junto”. Essa frase não é dele, é do guru da extrema direita, Olavo de Carvalho. Em diversas entrevistas, o ex-secretário defendeu que para ter uma cultura que dignificasse o povo era necessário haver um bombardeio de arte conservadora. E o que é essa tal arte conservadora? Segundo o próprio, manifestações artísticas clássicas, ou, ainda, o que eles chamam de alta cultura, o que se encaixa perfeitamente com a resposta de Flávio Bolsonaro na campanha de 2016.

Ao que pese que a arte é polissêmica, ou seja, abrange várias interpretações – o que significa que um movimento artístico não significa necessariamente um pensamento conservador – essa obsessão em exaltar tudo aquilo que é clássico não é novo no espectro político, os nazistas já o faziam. O livro ‘Hitler e os Artistas’, do historiador Henry Grosshans, coloca que havia, na Alemanha nazista, o entendimento que a arte greco-romana era a única livre de judaísmo e a que remetia as origens do povo alemão.

A ideia de um predomínio cultural oriundo do clássico vem de um conceito muito difundido no bolsonarismo, a arte como exaltação do belo. Os nazistas tinham o mesmo pensamento, gostavam de obras que exaltavam a beleza estereotipada, ou a estética padrão. A própria Olimpíada de Berlim de 1936 foi um palco para  exibir esculturas de corpos perfeitos e simétrico como uma forma de representar o ideal ariano. Por sinal, o ultra direitista, Leandro Narloch, encarna um pouco desse espírito em um de seus artigos em que ele critica a estética de Fridha Kalo: “Minha hipótese: o feio é o novo bonito. A beleza tradicional da arte clássica, o rosto simétrico, os nus impecáveis ficaram para trás”. Ora, considerando que a beleza retratada nas obras clássicas vem de uma visão euro-centrista, logo, Narloch parece também querer uma arte branca.

Mas o propósito central da exaltação ao belo e o clássico vem de um combate que a extrema-direita faz ao que eles chamam de relativismo moral. Isso é diretamente ligado à contraposição ao multiculturalismo, ou seja, entende-se que há sociedades mais avançadas que as outras e que tal fato é explicado pela cultura. E, uma vez que a sociedade perde a noção do que seja a moral, esse seria um passo para ela se perder. A tese, então, defende que perdendo aquilo do que seja o belo, os indivíduos perderiam hábitos que os tornam civilizados. Obviamente, essa teoria abre uma enorme brecha para se esmagar as minorias e instaurar o ódio, uma vez que pode se classificar como feio aquilo que é diferente. Todavia, estabelecer uma moralidade de referência serve perfeitamente a ideia fascista de que a sociedade tem que se unir através de um conjunto de valores de tom nacionalista e até religioso.

Já o modernismo, alvo da extrema-direita fascista e bolsonarista, depois dos movimentos artísticos do século XIX inspirados na ciência e, muitos deles, na psicanálise, trabalha com a desconstrução, seja das linhas na pintura, ou em novas propostas literárias, ou até mesmo nas novas propostas cênicas. Abre-se, então, um leque de novas formas de expressão artística como a nudez, a representação sexual, as abstrações, imagens críticas a religiões e novas técnicas, diferentes da tradicional. Em outras palavras, a arte moderna não se preocupa tanto assim com o belo, sendo menos afirmativa e mais contestadora. Com isso, ela pode chocar a moralidade hegemônica, além de nela surgir uma brecha para que o expectador reflita mais profundamente sobre o contexto que ele vive, o que é péssimo para aqueles que querem unir a sociedade em torno de um espírito nacionalista.

E por ser muito diferente daquilo é senso comum, os modernistas criavam uma outra bronca em Hitler, a difícil compreensão. Para o dito füher, arte deveria ser da fácil entendimento para toda a população, até mesmo para consolidar o nazismo como um movimento de massas. Já para Bolsonaro, tanto os livros didáticos, quanto os espetáculos devem ser leves e acessíveis para a dita família tradicional. Ora, se tanto nazistas quanto bolsonaristas trabalham através da afirmação intransigente da ordem, ou seja, a dialética positiva em seu estados bruto, é de se entender que uma abordagem mais complexa sobre “as coisas do mundo” seria extremamente nocivo para estes dois movimentos políticos. A estratégia de ambos é clara, desmoralizar essas reflexões através daquilo que se pode chamar ignorância orgulhosa, ou seja, se você não entende, aquilo nada significa. Mas isso será abordado mais adiante no texto.

E se o nobre é considerado o belo, para o bolsonarismo, o popular deve ser o xucro. Certa vez, a deputada bolsonarista, Bia Kicis, declarou em seu Twitter: “No Simpósio conservador é assim. Não tem funk nem axé. Tem alta cultura. Vive la haute culture!”. Além do fato de “haute culture” não existir no vocabulário francês – ou seja, gostam de se mostrar eruditos, mas são completos ignorantes – abaixo havia um concerto de música clássica – muito mal executado, por sinal. Em outras palavras, não é só uma exaltação ao clássico, mas também um preconceito contra manifestações da cultura popular, as quais eles julgam vulgar.

No nazismo, a perseguição a música popular negra se dava pelo repúdio ao jazz e o blues, que era o que tocava nos cabarés na Berlim da República de Weimar. Havia até o Wider die Negerkultur für deutsches Volkstum, ou decreto contra a cultura negra e em favor do nacionalismo alemão. Ou seja, se Bia Kicis e os bolsonaristas não gostam da canções  interpretadas por brasileiros de maioria negra, e justificam com os palavrões e menções sexuais nelas contidas, os nazistas usavam o fato da música afro-americana tocar em prostíbulos para persegui-la. Essa rejeição a uma possível vulgarização vem também da ideia de algo superior ou sagrado, oriundo das origens do povo – para o fascismo, desde que venha da origem do branco, claro.

Mas, seja o culto aos clássicos e ao belo, ou uma rejeição da arte moderna e da cultura popular, a ideia central que mais une olavistas e nazistas neste campo é a ideia da transcendentalidade que, na prática, é o uso da estética para fazer política. No vídeo polêmico, Alvim diz: “É por isso que queremos uma cultura dinâmica, e, ao mesmo tempo, enraizada na nobreza de nossos mitos fundantes. A pátria, a família, a coragem do povo e sua profunda ligação com deus.”

Este pressuposto não é um mero detalhe, mas importantíssimo para se formar o facho. Se a ideologia propunha que a sociedade formasse uma união em torno de valores nacionais, logo, era preciso que houvesse uma sensação de pertencimento de cada cidadão. A cultura, no nazifascismo, tinha exatamente essa função, a de levar à população a sensação sentir superior por pertencer a uma nacionalidade e, no caso do regime de Hitler, também por ser de uma determinada raça.

É a mesma sensação que o ex-secretário de Bolsonaro queria provocar no povo brasileiro quando fala em “criar formas estéticas poderosas”. Entretanto, o mesmo acabou escorregando no plágio de Goebels. Podem ter certeza, que se não houvesse esse deslize, toda extrema-direita estaria aplaudindo seu plano nazista, assim como endossam cada palavra das teses malucas de Olavo de Carvalho.

Mitos fundantes e monarquismo

O primeiro vídeo do Brasil Paralelo, aquela produtora de extrema-direita que coloca o Olavo de Carvalho em evidencia e é amplamente divulgada por, MBL, Mamãe Falei e o canal de YouTube “Ideias Radicais”- o que se diz anarcocapitalista e anti-coletivista – entre outros, chama-se “Entre a Cruz e a Espada”. O objetivo óbvio do vídeo é exaltar as figuras que, segundo eles, fundaram a nossa nação. A maior menção, sem dúvida nenhuma, é a da Família Real Portuguesa, mas há ali uma certa celebração aos Cavaleiro Templários.

No passado, os nazistas gostavam de uma outra ordem, a dos Cavaleiros Teutônicos. Durante desfiles cívicos na Alemanha de Hitler, era muito comum haver inúmeras representações destes. As duas ordens tiveram atuação nas cruzadas, só que os Templários em países como a França e Portugal, e os Teutônicos no Reino da Prússia e no Império Germânico. De qualquer forma, parece claro que o objetivo dos bolsonaristas, assim como era dos nazistas, é exaltar um suposto passado de heroísmo para unir todo um povo com o discurso de uma origem pura da nação. Alvim quis trazer isso para a cultura nacional quando disse: “A arte brasileira da próxima década será heroica e nacional”.

Outro dado que faz parte do arcabouço ideológico do bolsonarismo é o monarquismo. Por sinal, um dos bolsonariastas mais célebres é Luiz Philippe de Orléans e Bragança, o autointitulado príncipe do Brasil, aquele que disse esperar que o Bolsonaro seja o último Presidente da República. O saudosismo da monarquia é típica dos fascista, e, vejam, não está se falando de um conservador britânico que quer manter uma tradição, mas, sim, de pessoas que querem voltar a um passado. Mussolini queria reviver o Império Romano, Hitler entendia seu governo como o terceiro reino, ou III Reich, e Franco só aceitou deixar o poder com reestabelecimento da família real espanhola.

A tara pela volta de um rei ou imperador é que ele seja a encarnação dos valores que guiam a nação. Portanto, quando Alvim falava o tempo todo em origens, nação e heroísmo, além de muito sintonizado ao nazifascismo, também estava umbilicalmente ligado com o bolsonarismo.

QueerMuseu e a Arte degenerada

Muitos se lembram quando o MBL perseguiu e pediu para censurar o QueerMuseu em Porto Alegre. A alegação era que a amostra promovia apologia à pedofilia, zoofilia e a ideologia de gênero. Na verdade, a exposição visava apenas colocar no campo das artes a discussão sobre gênero que acontece em diversas áreas acadêmicas, como a filosofia, as ciências sociais, a biologia, a medicina, a genética e a neurociência. Infelizmente, a direita vulgariza o debate colocando tudo no mesmo plano da imoralidade. O argumento central dos extremistas é que essa é uma estratégia de corromper a sociedade através do marxismo cultural.

Em 1937, na cidade de Munique, foi feito o Museu de Arte Degenerada, exposição que depois foi a várias outras cidades do chamado III Reich. O alvo principal era a chamada arte moderna. As obras eram colocadas ao lado de imagens de pessoas deficientes para dar a impressão de que eram feitas por doentes mentais.

Durante a polêmica do QueerMuseu, um grupo chamado “Tradutores de Direita” publicou um vídeo em que um rapaz expõe várias obras aparentemente ruins, generaliza como se todo o modernismo fosse assim, e faz afirmações do tipo: “a Arte Moderna ou a Arte Conceitual não é Arte de modo algum. É uma panelinha de babacas pretensiosos, que tentam parecer sofisticados, atribuindo sentido a algo que não tem sentido algum” – Repetindo, há problemas com a arte moderna atual, mas não são esses.

Conforme colocado anteriormente, a ideia de aplicar a ignorância orgulhosa – a do não entendo, logo nada significa – é comum na extrema direita. Hitler, por um lado, desqualificava aquilo que parecia incompreensível como sendo feito por deficientes mentais, e o rapaz do vídeo rejeita aquilo que não compreende nos museus modernistas acusando os artistas de delirantes. Incrivelmente igual! Além, é claro, de culpar o Marxismo Cultural pela suposta falta de qualidade na arte moderna, assim como os nazistas atribuíam o modernismo da época ao bolchevismo cultural.

Mas a própria perseguição a exposição de Porto Alegre, além de se assemelhar com movimento contra a Arte Degenera, se parece muito mais com a caça que os nazistas fizeram com Freud. A bronca do nazismo com o psicanalista é por conta de suas teorias de que crianças tem sexualidade. Já o moralistas do MBL ficaram chocados com o debate, feito pelas obras do museu gaúcho, de que menores de idade podem ser homossexuais e até transsexuais.

No episódio brasileiro, inclusive, os ultra direitistas fizeram questão absoluta de desmoralizar os quadros dizendo que aquilo não era arte. Alguns afirmaram que aquilo era simplesmente pornografia com a função de degenerar crianças. Por mais incomodo que fossem, aquelas figuras não tinham intenção de provocar libido, logo não eram pornográficas. Por outro lado, toda obra artística tem o propósito de provocar reflexão, e se você amou ou odiou, pouco importa, só um nazista que gosta de exalta o belo e os valores hegemônicos acha que quadro deve ter um encaminhamento moral.

Uma extrema-direita que quer aplicar o fascismo sem parecer fascista

Marine Le Pen, da Frente Nacional, partido oriundo de vários partidos nazistas e fascistas na França, e filha de Jean-Marie Le Pen, um nazista assumido, criticou Bolsonaro por dizer “coisas extremamente desagradáveis”. No exterior, o presidente brasileiro é visto com espanto até por aqueles que defendem abertamente a xenofobia, o antissemitismo e são herdeiros dos nazifascistas.

O nazifascismo está fora de moda, seu legado para humanidade é péssimo. Porém, suas ideias, por mais que não sejam chamadas pelo, são sucesso pois fazem a chamada dialética positiva, aquela que apela à alienação de classes, aos valores morais hegemônicos e a ideia de nação.

Crises políticas e econômicas no mundo todo despertam a cadela no cio do fascismo. Porém, como é feio parecer um, a extrema-direita se disfarça com novas nomenclaturas como Aliança, Frente ou Liga.

Por isso, é preciso lembrar ao povo que as ideias de Roberto Alvim derivam da tese do Marxismo Cultural, que é uma tese da extrema direita, importada por Olavo de Carvalho e que é uma adaptação do Bolchevismo Cultural, uma tese nazista.

E MBL e cia não têm o direito de se escandalizarem com tais declarações, pois eles alimentaram essas teorias malucas, perseguiram o Queermuseu, cutucaram as minorias sob o argumento de combater a chamada ideologia de gênero, entre outras coisas. São iguais, são sócios ocultos no fracasso do ex-secretário de cultura.

A extrema-direita não gosta da pecha de fascista, porque pega mal, mas adora suas ideias. Alvim foi apenas sincero, mas o problema continua sendo a agenda reacionária do governo Bolsonaro.

Esquerda deixou o avestruz entreguista de Bolsonaro triunfar, o que enfia a cara no Macron e mostra o traseiro para Trump

Durante a crise na Amazônia, infelizmente o blog ainda estava fora do ar. Mas é importante recordar o que ocorreu naquele período para entender como, por vezes, a esquerda se deixa pautar pelo presidente de extrema-direita.

Não precisa ter mestrado ou doutorado em relações internacional para perceber o óbvio, que Bolsonaro faz uma política entreguista e de submissão inexplicável – quando se olha os interesses do Brasil – aos EUA. Começou com o atrito com a China, em seguida a briga com os países muçulmanos com a proposta de mudança da Embaixada de Israel para Jerusalém – lembrando que chineses e islâmicos (árabes e persas) respondem pela maior parte do superávit da balança comercial brasileira -, depois veio a possibilidade de uma incursão militar na Venezuela, até chegarmos à visita a Donald Trump, que incluiu abrir mão do status de país em desenvolvimento da OMC por uma promessa de entrada na OCDE, acordos para a base de Alcantara, permissão para importação de produtos agrícolas e pecuários sem contrapartida, e visita a CIA para tratar das questões da Venezuela.

Tudo isso vem alinhado com um discurso fajuto do Olavo de Carvalho, representado por um de seus pupilos, Filipe Martins, assessor de assuntos internacionais da presidência da república, de que precisamos combater o globalismo, o domínio eurasiano e nos alinhar com países que reforcem a tradição judaico-cristã ocidental. Essa balela toda serve para justificar submissão a interesses poderosos dos EUA, mediados pelo articulador da extrema-direita no mundo, Steve Bannon.

Porém, mesmo com essa atitude entreguista, por incrível que pareça, o presidente brasileiro conseguiu sair, para boa parte de seu povo, como um patriota, como alguém que defende os interesses nacionais. A pergunta angustiante que se deve fazer é como? Como? Muito simples, temos uma esquerda que se liga em valores universais, como o meio-ambiente e os índios – que são importantes, e se esquece da correlação da luta de classes – crucial para colocar em prática essas pautas – e de uma de suas principais missões, o anti-imperialismo.

É importante observar que Bolsonaro é um desprezível protofascista e que faz uma política de destruição e entrega da Amazônia – seu filho, Eduardo, já prometeu mineradoras americanas no local. Isso posto, deve-se recordar que a maior vocação da esquerda, sobretudo a marxista, é o combate ao imperialismo, o que sufoca países, sobretudo os emergentes, para extrair seus recursos naturais, rebaixando seu valor de troca, ou usar sua mão-de-obra barata, e, com isso, acelera-se o processo de exploração dos trabalhadores dessas nações numa velocidade maior do que se feita pelas elites locais. Ou seja, se toda burguesia é exploradora, a burguesia internacional é muito mais.

Mas esse processo não ocorre de supetão, é preciso primeiro dominar a política e o território de diversos lugares do mundo. É nesse momento que o imperialismo, além de mega explorador, é destrutivo. Aí que uma esquerda ligada em valores só consegue ver, por exemplo, um ditador sanguinário em Muammar al-Gaddafi. A guerra civil na Líbia que, hoje se sabe, teve apoio direto dos EUA, depôs e matou o antigo tirano. No lugar, o país que tinha relativa estabilidade política e social, agora é controlado por extremistas islâmicos e vive embates civis constantes. Ou seja, para retirar o controle dos inimigos, os americanos instauram o caos. Exemplos similares se observa no Egito, Venezuela, Afeganistão, Iraque, Líbano, Ucrânia e Turquia, onde o dedo imperialista desorganizou e desestabilizou a política interna, causando imensas crises sociais e econômicas, e às vezes sem sucesso em sua missão. Mas o maior exemplo de destruição foi na Síria. Para enfraquecer o maior aliado da Rússia, Obama armou os rebeldes sírios que se juntaram com o que restou da Al-Qaeda e os sunitas iraquianos – que perderam o poder após a queda de Sadam Hussain- para formar o Estado Islâmico e tentar derrotar o também déspota Baschar Al Assad. O dirigente sírio que chegou a perder quase todo território, hoje, já retomou mais de 60% com a ajuda dos russos, e é óbvio que todo o conflito deixou um enorme rastro de destruição. O país árabe, que vivia relativa estabilidade, perdeu metade da sua economia, além de espalhar milhares de refugiados pelo mundo.

Mesmo com o imperialismo a representar uma terrível ameaça, no meio da crise das queimadas na Amazônia, pela preservação ambiental e em oposição ao bolsonarismo, parte da nossa esquerda resolveu abraçar… Macron. O líder francês aproveitara o momento para incendiar o discurso ambientalista da esquerda pequeno-burguesa e propor discutir uma governança internacional na floresta amazônica. Vejam só, o presidente da França queria um controle global de uma parte do território brasileiro do tamanho da Europa Ocidental e parte dos nossos representantes esquerdistas saíram em sua defesa. É obviamente uma falta total de leitura política e uma ótima oportunidade para o governo bolsonarista lançar a cartada patriótica. Aí ficou fácil, era só vir com a mesma conversa fiada das ONGs, da mídia, do globalismo, etc, etc, etc. Ou seja, Bolsonaro, o mais entreguista de todos, ganha da esquerda o status de nacionalista em uma crise que ele mesmo provocou.

Nesse caso, havia alguma forma de se opor ao mandatário brasileiro sem se deixar capitular ao imperialismo? Sim! Era só trucar a cartada patriota dele. E, como? Para responder essa pergunta, basta recordar os capítulos dessa celeuma.

No período pré e pós eleitoral, Bolsonaro prometeu acabar com o Ministério do Meio-Ambiente e anexa-lo ao Ministério da Agricultura. Alertado por representantes do agronegócio de que isso poderia prejudicar as exportações brasileiras, recuou. Ainda propôs acabar com reservas indígenas e explorar mineração na Amazônia, além questionar os dados desmatamento e demitir o diretor do INPE. Isso tudo, é claro, incomodou ambientalistas pelo mundo todo, o que prejudicou a imagem do país no exterior, a ponto do Blairo Maggi, produtor de soja e constantemente acusado desmatador – chegou a ganhar o prêmio motosserra de ouro do Greenpeace, reclamar que a fama do Brasil de não preservacionista do novo governo estava prejudicando seus negócios.

O discurso da ecologia é justo, do ponto de vista da esquerda, pois escancara ainda mais o caráter destrutivo do capitalismo, que na sanha da acumulação não é capaz de proporcionar desenvolvimento com preservação ambiental. Entretanto, também é muito usado quando países querem boicotar ou sabotar outros. O meio-ambiente é uma causa apaixonante para muitos, comove celebridades e faz com que pessoas doem dinheiro. Logo, qualquer aventura internacional encontra nesse discurso um ativo político muito forte.

No momento que a crise das queimadas se agravou, que o dia virou noite em São Paulo, Macron deve ter pensado: agora é a hora! Ele que enfrenta uma grave crise de popularidade graças a sua política neoliberal semelhante a de Paulo Guedes,  poderia usar um possível boicote ao setor agroexportador brasileiro para obter apoio dos produtores rurais franceses e dos partidos verdes de esquerda na próxima disputa eleitoral, que provavelmente será contra a extrema-direita de Marine Le Penn.

Após o discurso duro do líder francês dirigido ao Brasil, Bolsonaro retrucou chamando sua mulher de feia e dizendo que o país europeu tem uma postura colonialista. Nesse último aspecto (o da política colonizadora), ele está certo, só que o que o presidente brasileiro faz? Terceiriza a defesa da soberania nacional para Trump.

É importante ressaltar que toda essa bagunça ocorreu dias antes do encontro do G7, onde é possível observar, logo nas primeiras horas, Macron e Trump conversando separadamente e muito provavelmente sobre a Amazônia. Obviamente, o estadunidense não fez isso de graça, a opção feita pelo governo do Brasil de um alinhamento automático com a nação norte-americana renderá muitos frutos a seus interesses. E, nesse caso, é bom sempre lembrar que Eduardo Bolsonaro, indicado a embaixador nos EUA, prometeu uma mineradora americana em Raposa Serra do Sol, onde há uma reserva indígena – um tipo de demarcação tão atacada por Jair Bolsonaro – Yanomami próxima a Venezuela, onde os dois países quase fizeram uma invasão militar.

Isso tudo sem contar que a ameaça de boicote ao setor agroexportador brasileiro, o que representa a maior participação no PIB, ainda não foi resolvido. Parlamentos como o da Áustria ameaçam o acordo Mercosul/União Européia e fundos de investimento estão ameaçando tirar o Selo Verde do Brasil. Ou seja, Bolsonaro provoca uma crise, não resolve, apresenta sinais de entrega da Amazônia e outras coisas mais para os americanos, e ainda sai com fama de patriota com um discurso contra Macron e os inimigos internos do pátria.

Naquele momento, a esquerda deveria trucar a cartada bolsonarista. Exigir que presidente resolvesse os quatro aspectos da crise: o problema das queimadas, impedindo uma intervenção estrangeira no território nacional, sem prejudicar a economia e nem entregar nada aos EUA. Se Bolsonaro resolvesse, ótimo, como não iria, seu governo se enfraqueceria e poderia haver um encaminhamento para sua derrubada. Além disso, é papel intransigente da luta dos trabalhadores rechaçar qualquer tentativa ou especulação de intromissão externa nas fronteiras brasileiras.

Todavia, a esquerda tomada por valores como o feminismo – que é justo, porém não pode ser superior ao anti-imperialismo e ao ímpeto de impedir uma tomada de boa parte do território nacional – preferiu pedir desculpas para Brigitte Macron por ter sido chamada de feia. Bolsonaro faz mal a Amazônia, só que a solução não é o dedo imperialista europeu, e sim o ‘Fora, Bolsonaro!’, ‘Fora, Macron!’ e Fora, Trump!

Ciro Gomes foi um erro, e se mobilizar em torno dele é se organizar sob o comando burguês

Parte do eleitorado de esquerda, inclusive o blogueiro que vos fala, decidiu voto em Ciro. Foi um erro, e continuar em torno dele significará uma capitulação da esquerda pela burguesia.

Desde 2017, o Raiz da Questão está fora do ar por problemas técnicos e infelizmente o histórico do blog se apagou. Mas graças a blogueiros que replicaram, alguns dos textos continuam no ar. Ok, isso pode ser irrelevante pra você, pois, no momento, a página tem pouco mais de 3 mil seguidores no Facebook. Entretanto, a esses poucos seguidores – que eu espero que, em breve, sejam muitos mais – é preciso dar uma satisfação.

Porém, reativar o blog sem relembrar o que ocorreu seria uma falha. A história não acontece assim do nada e o que foi escrito se tornou público e algumas vezes foi reproduzido por outros sites. Por isso é importante rememorar, mesmo que em partes, os acertos e erros aqui cometidos.

 Com certeza, o gol de placa do blog foi o de ter antecipado a ascensão do partido NOVO e dos ditos liberais, que na verdade era um bando de reacionários. O texto foi publicado pelo site Viomundo do grande Luiz Carlos Azenha. A época, enquanto toda esquerda ainda se preocupava com o PSDB, forças como o MBL, seguidores do Olavo de Carvalho e algumas figuras que hoje são protagonistas começavam a se destacar. Hoje, os tucanos quase desapareceram, até mesmo seu partido é dominado por um político alinhado com a extrema-direita.

Relendo o texto de 2015 em 2019, a previsão de que as pautas de comportamento e segurança pública fariam sucesso eleitoral se realizou. Já a premissa que as pautas econômicas de direitos trabalhistas encontrariam pouca popularidade também se mostrou verdadeira, porém, o capital político presidente Jair Bolsonaro no início do ano emprestou uma certa aprovação popular para a reforma da previdência.

Todavia, a crise política, iniciada em junho de 2013 e que se estende até hoje, foi de gigantesco aprendizado para todos. Nesse contexto, o blog também errou, e errou muito. E é preciso reconhecer para recomeçar. Afinal, já dizia o poeta, quem erra na análise, erra na ação.

Com certeza, a maior lição que a esquerda deveria ter aprendido – e não aprendeu – foi que a análise idealista, a baseada no conjunto de ideias, é equivocada de saída. O blog já sabia disso, entretanto, em alguns textos, caiu nessa armadilha. Quando os fatos são colocados sob a luz do materialismo histórico dialético e da luta de classes, as coisas ficam mais claras.

Mesmo sem cair na armadilha do idealismo e com o blog já fora do ar, o maior erro do blogueiro que vos fala foi o de apoiar a candidatura do Ciro Gomes. E sobre esse equívoco, como diriam ministros do STF, é preciso se debruçar.

Antes de tudo, é necessário constatar que em nenhum momento se deu crédito ao seu falso discurso progressista, aos bordões do tipo “tatu no toco”, as propostas de aliviar o endividamento do brasileiro e, principalmente, nem a de poupar os trabalhadores das reformas trabalhista e previdenciária. A interpretação do cenário naquele momento foi baseada, sim, na luta de classes. O entendimento foi de que a esquerda não teria força para ganhar a eleição no 2° turno, visto isso, a prioridade seria evitar um avanço mais forte do neoliberalismo e do fascismo.

Ciro Gomes sempre foi um político da burguesia. Durante o transcorrer do golpe contra a presidenta Dilma, ele foi presidente da CSN, do empresário Benjamin Steinbruch, um dos mais direitistas da FIESP e que sempre atuou nos bastidores pra retirar direitos dos trabalhadores. O industrial chegou, inclusive, a propor que o trabalhador almoçasse com uma mão e operasse a máquina com outra. Durante a gestão do pedetista na CSN, não era raro vê-lo palestrando em pleno horário comercial, ou seja, se faz política durante o expediente, pode ser que não era bem pela gestão da empresa que ele estava ali.

Entretanto, o político cearense não é de qualquer burguesia, é especificamente da burguesia produtiva e que tem interesses distintos da burguesia financeira e internacional. Toda a elite concorda que o custo do trabalho deve ser o menor possível, só que os bancos querem o crédito mais voltado para a especulação e o imperialismo quer o Brasil cada vez mais um país agroexportador para poder comprar suas comodities mais baratas. Sendo assim, esses dois setores burgueses sabotam qualquer projeto de desenvolvimento nacional. Já industriais e ruralistas desejam empréstimos com juros mais baixos, infraestrutura eficiente, produção científica a todo vapor e, se possível, um mercado interno pujante.

Para os trabalhadores, o melhor seria a combinação de desenvolvimento nacional sem retirada de direitos. Porém, quando se compara os interesses dos banqueiros e imperialistas contra industriais e ruralistas, para a classe trabalhadora, o melhor seria a segunda opção. A partir dessa leitura que este blogueiro que vos fala recomendou a seu humilde número de seguidores o voto em Ciro Gomes.

Havia vários erros nessa interpretação. A primeira foi desprezar o PT como resultado das organizações da classe trabalhador. Muitos questionariam, “ah, mas e o Lula? Os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro com ele, as empreiteiras estiveram muito próximas do presidente”. Sim, isso é a mais absoluta verdade.

Porém, é preciso entender: o ex-presidente é um representante dos trabalhadores que conciliou com a burguesia. E é esse laço com o proletariado que garantiu algumas ‘migalhas’, como o reajuste do salário mínimo acima da inflação, os programas sociais, o crédito para agricultura familiar, uma posição de alinhamento alternativo ao imperialismo no cenário internacional, etc, etc, etc. Além disso, a base petista nos maiores sindicato, a CUT, e movimento camponês, o MST, da América Latina e nos movimentos sociais, garantia o acesso da classe trabalhadora a suas pautas no governo federal. Se elas eram cumpridas é outro assunto, mas o neoliberalismo nos governos petistas foi bem menor do que seria se sua ampla base social não tivesse este vínculo.

Ciro, sendo político burguês com discurso de esquerda, caso fosse presidente, não poderia garantir estas conquistas, pois estaria amarrado a um empresariado, dando-lhes mais impulso na correlação de forças. Pode até ser que ele conseguisse romper com o desastre neoliberal, já que é um representante do capital produtivo, e não especulativo. Mas é importante ressaltar que mesmo entre os setores, a burguesia tem interesses e estratégias difusas, logo, não se poderia ter certeza que isso resultaria em uma política mais desenvolvimentista.

O segundo aspecto do erro é que o processo eleitoral é uma ótima oportunidade para radicalizar a luta política. Olhando para trás, a decisão mais correta do PT seria manter a candidatura do Lula até o final, mesmo seu registro sendo anulado, o que levaria a uma vitória do Bolsonaro já no primeiro turno. Com isso, os votos no líder petista seriam impugnados, mas não ocultados, e é quase certo que em maior quantidade que obteve Haddad. A partir desse momento, seria possível especular qual seria sua votação caso estivesse solto  e assim escancarar o golpe para toda sociedade.

Já o voto no candidato do PDT é despolitizado, pois aceita a derrota da organização da classe trabalhadora e seu partido, ou seja, neutraliza qualquer polarização e radicalização. Em outras palavras, é como dizer que a prisão do Lula e o impeachment da Dilma são coisas do passado, passando a mensagem que esses eventos são coisas normais da democracia, quando não são. São fraudes que a burguesia nos impôs e que precisam ser desnudadas.

O terceiro aspecto do erro é o fato do desejo de Ciro em ser presidente não ter compromisso com os movimentos proletários. Tanto que, após a derrota na eleição, fruto, em partes, das manobras políticas do PT, ele fez o jogo da direita, chamou petistas de quadrilheiros e difundiu a frase criada por seu irmão: “o Lula tá preso, babaca”. Não é um jogo só direitista, mas também burguês, pois, por mais que houvesse corrupção aqui ou ali, o discurso pode legitimar uma perseguição jurídica que sofreu o principal partido de esquerda do país.

Esquecem-se aqueles que apoiaram Ciro que a superação do petismo no campo progressista depende fundamentalmente da migração dessas organizações dos trabalhadores para uma nova força política, caso contrário, elas se desmantelariam, debilitariam a luta e propiciariam um avanço brutal da burguesia. Ou seja, enquanto a classe trabalhadora organizada não tiver um novo partido, combater o PT é propiciar um avanço da direita.

Em cima disso, há o quarto aspecto do erro, o de rachar o eleitorado da esquerda, inclusive no congresso nacional. A desidratação petista no parlamento permitiu ao pedetismo eleger representantes com altíssima subordinação aos interesses das elite. O exemplo claro disso é o da deputada Tábata Amaral, que é ligada ao movimento Renova BR do empresário Luciano Huck e que votou favorável à reforma da previdência.

Ciro Gomes foi um erro da esquerda. Não significa que na próxima eleição devemos votar no PT, mas que se mobilizar em torno dele é se capitular frente a burguesia. Tudo isso dito, por essas e outras, sim, o Raiz da Questão reconhece o seus equívocos, mesmo sendo lido por ainda poucos . Nessa, digamos assim, reinauguração, o compromisso será o da luta política em defesa dos trabalhadores sob a perspectiva da luta de classes.