BBB 21: Como a esquerda caiu, cai e cairá na manipulação da Globo. Só o marxismo salva!

Eu não assisto o BBB, portanto, peço perdão aos leitores por eventuais erros factuais. Mas, assim como as novelas, infelizmente o Big Brother tem uma participação relevante na forma de pensar do povo brasileiro. Os debates trazidos pela programação da Globo são discutidos intensamente nos lares do Brasil.

Ao que pude me inteirar, na edição de 2021, duas mulheres negras foram selecionadas para participar do programa, Lumena e Karol Conka. Essas somadas ao cantor Fiuk, que representa a figura caricata do esquerdo-macho, fazem o deleite dos bolsonaristas todos os dias. Estas personagens conseguem a façanha de inverter a lógico de opressão, colocando a mulher negra, a mais oprimida de todas na sociedade, na posição de opressora, o que não corresponde à realidade cotidiana brasileira.

Se a ideia é seguir um discurso de aumento da representatividade, a Vênus Prateada, como é conhecida a emissora, faz um desserviço gigantesco com cheiro de sabotagem contra o movimento negro. E aí vai um dado importante, a atração é comandada por nada menos que Tiago Leifert.

O apresentador já se declarou contrário as torcidas organizadas – que, por mais que haja contradições nelas, são expressão da camada mais pobre da população, escreveu um artigo demonstrando insatisfação com manifestações políticas no esporte – quando jogadores de futebol americano se ajoelharam em protesto contra Trump.

Para Leifert, uma figura absolutamente reacionária, entretenimento e política não devem se misturar. Ou seja, um quadro televisivo cuja edição atual tem foco no identitarismo é comandado por alguém que acredita que deva haver uma distância entre diversão e questões sociai. Meio louco, não?

Manipulação da Globo, a esquerda se vê por aqui!

Para entender um pouco o que é a manipulação da Globo, é preciso recordar alguns fatos. A rede televisiva apoiou a ditadura militar, a fraude na eleição de Brizola em 82, Collor e FHC para presidente, os ataques a Lula na era petista, o golpe contra a Dilma, a Lava-Jato etc.

Agora, por uma manobra política, como a do BBB, o bolsonarismo conseguiu a proeza de pintar a emissora como sendo de esquerda. Mas, como?

Não é de hoje que a emissora dá vazão as chamadas pautas das minorias. Se dos anos 60 a 2000, as novelas globais reforçaram o estereótipo do negro como subalterno ao branco, do pobre serviu ao rico e do gay como figura caricata, de uns tempos para cá, com aquele estilo que lhe é peculiar, começou a abraçar alguns movimentos que representam as questões feministas, LGTBs e dos negros.

Essa não é uma sacada genial de algum analista político brasileiro, mas sim uma estratégia importada do imperialismo. Nos anos 60, houve uma explosão da causa dos negros nos EUA, comandada principalmente pelos Panteras Negras, organização declaradamente marxista.

O plano inicial de contenção desta ebulição social foi a repressão do FBI sob o argumento da subversão em plena Guerra Fria, ou seja, combateu os caras na porrada. O resultado dessa política foi um tremendo fracasso, com o Partido dos Panteras Negras crescendo sobretudo nas periferias das grandes cidades.

Nos anos 70, foi adotada uma nova tática. O governo americano patrocinou movimentos negros que rejeitavam o marxismo e adotavam uma visão puramente subjetivista e individualista. Ou seja, se antes a opressão do negro era vista como uma questão material, agora ela passava a se resumir a uma ausência de representatividade.

A Globo não é como seus concorrentes, ela representa o setor majoritário da elite nacional. Isso é evidenciado até por como a emissora se criou e se manteve, sempre com a ajuda do Estado que, como diria Marx, é centro de negócios da burguesia.

Bolsonaro é um legitimo representante da baixa burguesia que tenta, de alguma forma, ser emergente. Ele é resultado de toda uma estrutura do golpe que destruiu a política e a economia brasileira, e que tinha como objetivo entregar o país para a direita representada por DEM, PSDB e PMDB. A coisa fugiu do controle e a extrema-direita chegou ao poder. Agora, a alta burguesia tenta controlar o Presidente da República de alguma forma.

Nos áudios do falecido Bebiano, divulgados no início de 2019, o atual mandatário do Brasil rejeita um encontro com um representante da emissora carioca. Em seguida, o governo federal aumentou o share das concorrente – ou seja, não acabou a mamata para grande mídia, como diz Bolsonaro – e aprovou uma série de medidas contra a Globo – talvez seja, e é, o único legado dessa corja maldita que ocupa o poder, como, por exemplo, a MP do futebol. O grupo de comunicação, por sua vez, responde com ataques diários ao bolsonarismo.

Que existe um conflito entre a presidência e o principal conglomerado de mídia do país é fato. Porém, uma oposição entre os dois é falsa. Enquanto critica Bolsonaro por suas falas e atitudes no enfrentamento da pandemia e na chamada pauta de costumes, o jornalismo global apoia e concorda com a política neoliberal devastadora do Paulo Guedes, com a pauta assassina de segurança pública do atual governo e faz coro na defesa dos abusos jurídicos da Lava-Jato que resultaram nessa súcia que ocupa o poder.

Parte da esquerda, infelizmente falida, na ânsia de se contrapor a essa administração protofascista que assola o Brasil, faz a defesa da emissora carioca, que, por sua vez, finge se preocupar com as minorias para cooptá-las. E, na hora mais crítica de enfrentamento a extrema-direita, a rede de TV chuta o esquerdismo e coloca um programa que basicamente inverte a lógica de oprimido e opressor, provocando o gozo dos bolsominions.

Idealismo é opressor, materialismo libertador.

Entre alguns marxistas ditos ortodoxos, há o péssimo costume de colocar a pauta das minorias em segundo plano. É um erro! Marx, no livro “A Ideologia Alemã”, coloca que a ideologia da classe dominante não é vista como ideologia, ou seja, a reprodução de um estereótipo heterossexual e branco é entendido como um mero dado da natureza.

É óbvio que a imposição de um padrão estético através das revista, filmes e TV têm um reflexo material importante, pois acaba indicando no inconsciente coletivo qual classe deve ser a privilegiada, o que tem efeitos sérios no mercado de trabalho, na ação policial etc.

Porém, é importante lembrar que as causas dos negros, das mulheres e dos gays não são um mero problema de representatividade. Por exemplo, nunca os negros estiveram tão representados nas propagandas quanto hoje; e nunca eles estiveram tão encaixotados em favelas, explorados em seus empregos e com qualidade de vida tão precária como atualmente.

A opressão do negro é uma condição advinda da escravidão e que se perpetua na hierarquia de classes na sociedade. Se hoje a burguesia dá alguns poucos espaços de destaque aos negros, isso significa uma pequena concessão que não deixa de ser importante, mas não quebra a estrutura social que explora os mais pobres de maioria negra.

 Todavia, a exploração capitalista é mais sofisticada pois conta com um elemento chamado alienação de classe. Ou seja, o pobre explorado não se sente assim pois a ideologia dominante o faz acreditar que ele está em pé de igualdade de disputa e direitos com os membros mais altos da escala social, o que é falso.

Voltemos a Lumena e Karol Conka. Sim, as mulheres negras, como as duas participantes do reality, são as mais oprimidas e exploradas na sociedade. Entretanto, uma parte da esquerda pequeno-burguesa acha que reverter essa situação significa impor um novo ideal. E dessa forma, estas personagens, por incrível que pareça, assumem um papel de carrascas.

Paulo Freire já dizia que se a educação não for libertadora fará com que o sonho do oprimido seja o do opressor. Muita gente não entende a frase, sobretudo dentro da própria esquerda.

A maioria da população não tem tempo de ler Djamila Ribeiro – que, aliás, sempre aparece na Globo, aprender as novas variantes de gênero da língua portuguesa, saber que a origem de determinadas palavras é racista ou machista. O povo fala aquilo que aprendeu e não se preocupa como a língua foi criada.

Quando alguém como Karol e Lumena quer impor pela força seu pensamento, por mais justo que seja, torturando os outros para se encaixarem e se remodelarem àquilo que elas consideram ideal, isso se torna tão opressor quanto a elite branca que as oprimiu.

Esse é o problema crônico do idealismo, achar que porque seus valores estão certos, devem ser colocados em prática, mesmo que de maneira violenta. Isso é reacionário!

Só que ao contrário do capital, que usa da alienação de classes, a opressão do idealista é visível e aparente. Entra então um outro elemento, a suposta intelectualidade arrogante de quem acha que pratica os valores certo. O pobre, que não tem tempo de estudar, rejeita então tudo aquilo que ele vê como opressão, mas, também, toda a ostentação de um conhecimento que lhe foi negado.

Isso nada mais é que a velha e perpétua luta de classes, os subalternos se defendendo daquilo que lhes é imposto a força por aqueles que se designam como superiores. Logo, é óbvio que Lumena e Karol são vistas, e com razão, como intragáveis pelo público. O problema é que junto com suas reputações, o telespectador cai no mentiroso discurso da extrema-direita e diz: “Tá vendo! Olha como elas querem nos oprimir.”

Só o marxismo salva!

Eu considero horrível qualquer alusão que se faça do marxismo com a religião. Mas a frase é perfeita: só o marxismo salva. Salva quem, as esquerdas? Não só, o país também.

Se houvesse um entendimento melhor da estrutura de classes, certamente a esquerda denunciaria a oposição fake ao Bolsonaro e a pilantragem racial que a Rede Globo pratica.

Já no campo das lutas populares, um velho comunista disse certa vez, os valores das minorias devem ser colocados para as elites como imposição e para o povo como pedagogia.

Isso não significa apenas reeducar, mas lutar para que o pobre perceba através da sua própria realidade o sistema de exploração e em qual posição ele está inserido. Dessa forma, além de entender os Bolsodorias da vida, a população também entenderia o porquê negros e mulheres são excluídos de seus direitos têm baixa representatividade.

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