A falsa dicotomia (morrer de fome ou de vírus) faz Lula e Doria fertilizarem a covarde política da morte de Bolsonaro

A esquerda caiu na dicotomia, ficar em casa ou trabalhar. O dilema deveria ser burguês, pois, se os trabalhadores tudo produzem, ainda mais na crise do coronavírus, a tudo lhes deve pertencer.


Antes de iniciar a análise, é preciso marcar posição. A proposta do isolamento vertical feita por Jair Bolsonaro é completamente assassina! Fazer com que jovens voltem às casas noturnas, pessoas à restaurantes ou consumidores aos shoppings para comprar roupas e capinhas de celulares é absolutamente surreal no pior sentido que a palavra possa ter. É a ideia de que gente se aglomere para que motoristas de aplicativo, garçons, ambulantes, vendedores, atendentes e outros profissionais não percam seus empregos e rendas, e, com isso, se exponham a uma doença que na Europa apresenta números trágicos.

A posição do chefe do executivo parece mais absurda ainda – e é – quando se observa o que a ciência diz, como os líderes mundiais se posicionam frente a crise, incluindo Trump, e, por incrível que pareça, o que o seu próprio Ministro da Saúde recomenda. A imprensa – que apoia as políticas de Moro e Guedes, mas é receosa frente ao potencial risco de quebra de estabilidade institucional que o bolsonarismo representa – aproveita o descalabro que é a flexibilização da quarentena para, de forma justa, mesmo com objetivos mesquinhos, malhar publicamente o Presidente da República.

Tudo indica que o líder brasileiro da extrema-direita sai extremamente enfraquecido dessa crise, certo? Errado! Ele está prontíssimo para usar uma cartada digna de um covarde, adjetivo esse que pode ser usado para descrever sua postura ao longo da história, sobretudo nesta crise. Mas, para entender melhor é preciso olhar para um aspecto que a esquerda brasileira se recusa a encarar.

Voltar ao trabalho vs. Ficar em casa, a dicotomia imposta para manter o capitalismo alicerçado

Basta juntar dois neurônios para entender que o fim do distanciamento não melhorará a situação econômica, ou você acha que mesmo a ala mais radical bolsonarista não terá o pé atrás para voltar a frequentar bares e cinemas? Pior, liberar a população do isolamento horizontal significa uma pilha de corpos, pois, obviamente, o nosso frágil sistema de saúde não aguentará a altíssima demanda provocada pelo fácil contágio que o novo coronavírus provoca. Bolsonaro sabe disso, afinal ele, apesar de boçal, teve um mínimo de inteligência para ganhar a eleição presidencial de 2018.

Por outro lado, a quarentena, além de provocar um crise social sem precedente, é uma farsa. Falsa porque os trabalhadores continuam lotando trens, metrôs e ônibus, outros perdem o emprego e muitos autônomos ficam sem renda. A campanha “fique em casa” só é válido para uma classe média que pode fazer home office ou que tenha uma reserva financeira que a permita não trabalhar.

A pergunta é: o que fazer?

A política de Paulo Guedes de liberar dinheiro aos bancos é insuficiente. As instituições financeiras já aumentaram juros de empréstimos, diminuíram o número de parcelas e prazos de pagamentos dos financiamentos. Os R$600, que podem virar R$1.200, que seria dado aos autônomos parece demorar muito para chegar, agravado pelo fato do Presidente, que já cometeu 12 crimes de responsabilidade, ter medo de cometer mais um ao liberar essa verba que, mesmo assim, será insignificante perto do tamanho da crise.

Além disso, uma política neoliberal é inócua para resolver um problema dessa magnitude. Privatizar o que? Cortar gastos de onde? Isso com certeza agravaria ainda mais o caos, uma vez que tiraria dinheiro do mercado interno, piorando ainda mais a recessão.

A maneira de recuperar a economia, segundo a grande burguesia, será mesmo o velho keynesianismo. Os grande empresários parecem estar convencido de que só um projeto desenvolvimentista poderá tirar o país do buraco em que está se afundando cada dia mais. Guilherme Benchimol, CEO da XP, concluiu que, se não houver um novo Plano Marshal, o Brasil corre o risco de viver uma profunda crise social.

Porém, não se engane, caro leitor, a ideia do Estado se endividar e se tornar um grande investidor é apenas o medo que o burguês tem de perder seus negócios frente a uma enorme revolta popular. O temor de que saques a supermercados – que, goste-se ou não, será inevitável – se torne uma rotina comum de quebra da propriedade privada assusta as elites brasileiras.

Além disso, um plano keynesiano se converterá no período pós-pandemia em uma labuta dobrada aos trabalhadores para pagar a enorme dívida estatal contraída. É melhor que haja um projeto desenvolvimentista do que deixar os pobres sucumbirem com as medidas neoliberais, porém isso ainda é muito longe do ideal e pode não resolver a questão.

Para solucionar, a esquerda deveria ter um horizonte de abordagem: a luta de classes. E precisa ter um objetivo claro de superação da crise: que os ricos paguem por ela. Aí, um direitista mais fanático argumentará: isto significa fuga de capitais, ou seja, os investidores tirando o dinheiro daqui. Na teoria racionalista, esse argumento está correto, na prática do mundo real, depende da luta política que se desenvolverá.

O Brasil oferece a elite nacional e internacional altas taxas de lucro, impostos baixos para as maiores rendas, vastos recursos naturais e mão-de-obra barata, porém pouco qualificada. Em resumo, o país é um fazendão altamente lucrativo e com uma mentalidade de acumulação primitiva, ou, em outras palavra, um pensamento escravagista.

Observando a história recente, em 2004, o FMI, que nos anos 90 impunha aos países em desenvolvimento uma cartilha entreguista de privatizações e políticas monetárias e fiscais altamente restritivas, leia-se, de fome, foi extremamente benevolente com a Argentina que sofria uma crise econômica e social que poderia se converter em uma quebra institucional sem precedente, colocando em risco os negócios naquele país.

Se a burguesia cede quando está com medo, o objetivo da esquerda nesse momento deveria ser o de ameaçar ainda mais os capitalistas de perderem suas generosas fontes de renda, caso não venham a abrir mão de seus lucros durante a quarentena. Um programa radical de enfrentamento ao COVID-19 poderia se converter em proibição de demissões, suspenção de alugueis, juros, parcelas de dívidas, redução da jornada de trabalho e, até mesmo, intervenção do estado em unidades de fabricação de itens essenciais como álcool em gel, luvas, alimentos, máscaras, metalurgia para fabricação de respiradores, etc.

Uma vez que os brasileiros dispões de abundância de matéria-prima e mão de obra suficiente para prover o básico para a sobrevivência de todos, o que nos impede de dispensar alguns trabalhos não essenciais como o do churrasquinho na porta de estádio? Muito simples, a propriedade privada dos meios de produção.

Os grandes empresários se negam a aumentar a produção – e, com isso, a empregabilidade – de produtos essenciais. Preferem colocar o preço dessas mercadorias na estratosfera para que aqueles poucos que mantém renda possam comprar e manter as margens lucrativas de seus negócios.

Romper esta lógica burguesa significa transferir o dilema do povo, entre morrer de fome ou de doença, para a burguesia, o de deixar de lucrar agora ou correr o risco de perder os negócios no Brasil. Ao invés disso, os partidos de esquerda endossam a dicotomia de Bolsonaro, o que significa colocar as forças populares a reboque da extrema-direita, ou seja, viver da antítese dos absurdos incivilizados do bolsolavismo e não ter programa ou uma linha de atuação própria. Nesse clima de fazer o oposto aos seus inimigos é que Doria e Lula deram o combustível perfeito que o Presidente queria.

O fenômeno da extrema-direita potencialmente destrutivo na crise do novo coronavírus.

A democracia burguesa vive crises de tempos em tempos, pois não é capaz de resolver as demandas da população por causa da crise de superprodução. Com os aumentos exponencias da taxa de mais-valia, o capitalismo consegue produzir cada vez mais e melhores mercadorias com cada vez menos mão-de-obra. Com isso, o mercado fica inundado de produtos e sem renda do trabalho suficiente para consumi-los. O momento seguinte é um processo de desinvestimento dos capitalistas e aumento do processo recessivo, forçando a população a desprender mais esforço para obter seu padrão de vida.

Ao longo da história, a esquerda liberal, com seu discurso de redução das desigualdades sociais e dos serviços públicos, foi alternativa a direita tradicional, aquela que defende o livre-mercado e uma institucionalidade que proteja cada vez mais a propriedade privada. Mas, mesmo com crescimento da exploração e fincado em valores que sustentam a ordem, a república democrática apresenta uma série de direitos civis e políticos, crença na ciência e avanços civilizatórios.

Com o tempo, a esquerda foi ocupando o estado e, para isso, foi costurando acordos com a burguesia. Esse hábito domesticou os partidos populares que, para se manterem dentro da estrutura estatal, foram se flexibilizando ao ponto de não se saber mais a diferença – que existe – entre um partido conservador e um social-democrata. Exemplos disso foram vistos recentemente no PSOE espanhol, no Partido Socialista francês e, é claro, com o PT no Brasil.

A institucionalização fez com que estes partidos deixassem de defender o povo, e esse, por sua vez, deixou de ver nos esquerdistas a solução para as mazelas do sistema.

Eis que surge a extrema direita que, ao invés da dialética negativa, surge com a positiva. A solução dos ultradireitistas não combate os valores que sustentam a ordem, e sim os radicalizam. Por exemplo, reforçam ideias como as diferenças de gênero, orientação sexual, etnia e endossam os conceitos de nação e os valores morais.

Com a radicalização da direita, os avanços civilizatórios, como as liberdades civis e políticas, começam a ser prejudicadas, uma vez que essas são alívios dados ao caráter altamente repressivo do sistema. Em outras palavras, para os ultradireitistas, a ordem deve ser exercida sem nenhum tipo de conciliação.

Também some do radar a ciência, pois é apresenta como uma conspiração daqueles que defendem o main-stream contra o povo e seu desejo de exercer a moralidade. Abre-se então espaço para múltiplas teorias da conspiração que são absorvidas por parte da população, não pelo fato de apresentarem lastro sólido com a realidade, mas, sim, porque respondem desejos materiais objetivos, o de superar os problemas econômicos da democracia burguesa, e subjetivos, a da autoafirmação de suas crenças.

Em um cenário, como o do coronavírus, o afago de Lula e Doria só endossam a sensação de que há uma conspiração para acabar com o povo. Para quem não acompanhou, o petista publicou a seguinte mensagem em seu Twitter“Nossa obsessão agora tem que ser vencer o coronavírus. Chegamos ao ponto do Dória ter que mandar a PM invadir fábrica pra pegar máscara. A gente tem que reconhecer que quem tá fazendo o trabalho mais sério nessa crise são os governadores e os prefeitos”. O Governador paulista retweetou o ex-presidente e acrescentou: “Temos muitas diferenças. Mas agora não é hora de expor discordâncias. O vírus não escolhe ideologia nem partidos. O momento é de foco, serenidade e trabalho para ajudar a salvar o Brasil e os brasileiros.”

Pronto, estava montado o cenário perfeito para o bolsonarismo passar a mensagem que, mesmo antagônicos, PT e PSDB se juntaram para derrubar aquele que é o antissistema, para praticar imoralidades em nome da ciência. Já a esquerda liberal olha para tudo isso e enxerga um pacto civilizatório frente a barbárie. Nem uma coisa e nem outra.

É sempre importante lembrar aos esquerdistas que o tucano em questão já aplaudiu a MP927, que permitia os patrões ficarem 4 meses sem pagar salário diante da necessidade de suspensão das atividades por conta da pandemia. Doria não tem uma resposta concreta para a crise social, ele apenas cumpre o papel de manter a doença controlada em seu Estado, e não abre mão da política neoliberal, tampouco de não mexer na propriedade privada dos meios de produção e muito menos de sacrificar os dividendos da classe alta.

E a esquerda desestruturada, sem uma visão sólida da luta de classe, na ânsia de ser antagonista do Bolsonaro se une com aquele que atacou agressivamente os movimentos populares, relativizou o massacre da PM em Paraisópolis, já ignorou e debochou dos especialista e que fechou sua campanha em 2018 com o ‘BolsoDoria’.

Bolsonaro tem chance de ser bem sucedido na sua proposta assassina e em sua política covarde

Bolsonaro, por sua vez, poderia lançar mão de um decreto que derrubasse as medidas da quarentena, mesmo que depois isso fosse cassado no STF ou no parlamento. Seria uma demonstração de atitude para atender os autônomos e desempregado. Mas, não, prefere atacar governadores e prefeitos porque sabe que essa medida seria inócua e empilharia caixões pelo país. Também poderia abrir os cofres públicos para conter a miséria provocada, entretanto, sua covardia e apego aos donos da Havan e do Madero, a burguesia pé-de-chinelo, o faz receitar cloroquina na porta do palácio. E, já que não gosta desse papo de recomendações da OMS, poderia demitir Mandetta, mas seu medo frente a popularidade do ministro o deixa na posição de rezar para que ele se demita.

Todavia, não se engane, a crise social provocada por esse novo vírus, aos poucos, poderá dar a narrativa ao Presidente, a de que ele está certo e o resto do mundo civilizado, errado. Logo, poderá se consolidar como o combatente dos universitários arrogantes para defender seu povo de um inimigo imaginário, o globalismo. É uma postura arriscada, mas que, dependendo dos ânimos populares, pode dar bons frutos para suas pretensões políticas.

Infelizmente, a esquerda caiu na dicotomia, morrer de fome ou de vírus. Deveria apresentar um programa radical, pois, se os trabalhadores tudo produzem, ainda mais no momento de crise sanitária e econômica, tudo lhes deve pertencer.

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