Eleições e falta de visão da luta de classes fazem a esquerda adubar Bolsonaro na pandemia

A esquerda se recusa a fazer um discurso classista e, com isso, não atende os anseios do povo. O que fortalece Bolsonaro, que, por sua vez, vocaliza os desesperados com uma proposta enganosa.

Pesquisa simulando disputa presidencial divulgada em 6 de agosto pelo PoderData aponta que Jair Bolsonaro teria, no momento, 38% das intenções de votos, 24 p.p. a frente de Fernando Haddad, que soma 14%, e em terceiro lugar aparece Sérgio Moro com 10% da preferência. O Raiz da Questão entende que toda pesquisa eleitoral é um ato político com algum lastro de realidade ou, em outras palavras, não é porque a Folha de São Paulo ataca o Presidente que a esquerda deve acreditar que o DataFolha é sério. Mas, se não houver alguma conexão com a opinião das pessoas, ou se, por exemplo, a pesquisa apontar o João Amoêdo com 80%, a apuração ficará em evidente descrédito na opinião pública.

Se verdadeira, a soma das intenções de voto de Moro e Bolsonaro totalizam 48%, ou seja, se a eleição fosse hoje, a extrema-direita teria quase metade do eleitorado. E aí, muita gente da esquerda se pergunta: como? Como um sujeito que incentiva aglomerações desnecessárias, gasta quase nada do orçamento para combater o novo coronavírus, que incentiva o uso de um medicamento sem comprovação e que dá declarações infelizes dia após dia aparece liderando uma pesquisa com folga?

Muitos especialistas apontam o auxílio emergencial como a principal hipótese, afinal, o atual mandatário da República ganha em todas as classes, com exceção dos mais ricos, que antes eram os que mais o apoiavam. Vence, inclusive, entre os mais pobres, que antes eram os que mais o rejeitavam. Em outras palavras, Bolsonaro trocou o eleitorado de classe média-alta por um de classe baixa, o que não é novidade. Lula, que em 2002 tinha sua base eleitoral na classe média urbana, hoje tem seus votos nos rincões do país.

A hipótese do auxílio emergência é a mais óbvia para explicar o cenário político atual. Porém, o blogueiro que vos fala cogita uma outra possibilidade.

Coronavírus: Bolsonaro vendeu uma farsa, governadores e a esquerda caíram (de propósito).

Morrer sem renda ou doente, eis a falsa dicotomia imposta por Bolsonaro, conforme apontado no texto do blog em 7 de abril desse ano. A partir daí se iniciou uma batalha entre os contra e os a favor da quarentena.

O Presidente de República saiu com a estratégia de atacar tal medida, o que pode ser caracterizado como algo triplamente covarde. Primeiro, porque sabia que não tinha ingerência sobre a abertura ou fechamento de atividades não-essências, algo que cabia a governadores e prefeitos, logo, não seria de sua responsabilidade um número ainda maior de mortos por COVID-19, o que o colocava numa fácil posição de crítico. Se sua decisão fosse decisiva para um desastre ainda maior, é de se duvidar que sua postura seria a mesma. Segundo, porque ele sabia que não haveria uma melhora econômica significativa com uma possível volta do comércio, uma vez o Brasil é um país agroexportador e a recessão é global. Por fim, é muito fácil incentivar pessoas a saírem de suas casas quando se tem um atendimento medicinal de um chefe de estado, diferentemente do povo que é atendido no SUS ou nos caros e precários planos de saúde da classe média.

Por esse raciocínio, o leitor já pode perceber como o capitalismo é mesquinho. Reparem, o plano era que pessoas se aglomerassem em cinemas, lojas, estádios, casas noturnas, bares e restaurantes para que pipoqueiros, motoristas de aplicativo, lojistas e garçons tivessem emprego e renda, mesmo que isso lhes oferecessem um risco enorme de contrair uma doença altamente contagiosa.

Mas, mesmo nesse mar de mesquinhes, a classe trabalhadora precisa de dinheiro, mesmo que da forma mais primitiva. E é aí que a maioria dos prefeitos e governadores fizeram questão de não entender, ou não atender, melhor dizendo.

Os R$600,00 de auxílio emergencial, que o Presidente jogou contra em um primeiro momento e depois surfou na onda, é extremamente importante para saciar a fome de muita gente que ficou desamparada com a crise. Porém, o valor é completamente insuficiente para suprir as necessidades dos trabalhadores. Um exemplo claro disso é o fato do estado de São Paulo registrar uma ação de despejo a cada 22 minutos durante a pandemia, um recorde histórico.

O ‘ficar em casa’ foi extremamente importante para conter o avanço do vírus, mas tal ato atende apenas uma minúscula parte da população que pôde fazer home office ou que tinha algum tipo de reserva financeira. Para o resto, ou representou trabalhar sob enorme risco, ou o desemprego. E nenhuma autoridade apresentou uma mínima solução para resolver o problema. O resultado foi: o povo saiu às ruas para procurar seu sustento.

Pior, em São Paulo, Prefeito e Governador resolveram colocar a culpa … no próprio povo! Em meados de maio, Bruno Covas e João Doria sintetizaram toda a covardia bolsonarista em um ato só, decretaram um rodízio de automóveis na capital “dia sim, dia não”, o que acabou lotando o transporte público e gerou mais aglomerações.

A ideia era que, como a população não estava respeitando o isolamento social, seria necessária uma restrição maior. O que os dois tucanos não disseram era que o rodízio foi decretado em horário comercial, ou seja, as pessoas que deixaram seus lares não o faziam para o laser, mas sim para labutar e pagar suas contas.

A insensibilidade foi tamanha que em 12 de maio, no programa Brasil Urgente, Datena perguntou: “Se o cara não tiver grana, não tiver comida, o que o cara vai fazer preso dentro de casa?”, e a resposta do Doria foi simplesmente indecente: “…desculpa falar uma frase dura, mas ela é verdadeira, é melhor ficar confinado do que enterrado!”

Pergunta e resposta a partir dos 11:00 minutos

A extrema-direita se fortalece com uma esquerda que amansa seu discurso.

A estratégia dos governadores e prefeitos foi simplesmente a de administrar a crise, e não de resolvê-la. Funcionou da seguinte forma: apesar do número elevado de mortes e contaminados no Brasil, tal calamidade não foi o suficiente para provocar um colapso total na saúde. Por outro lado, apesar da gravíssima crise econômica, o R$600,00 foram suficientes para conter saques a supermercados e qualquer outro tipo de revolta popular mais grave.

Em suma, o objetivo era controlar a crise sem gastar muito, mas sem provocar colapso social. Para resolver de verdade o problema era preciso uma atitude mais assertiva, mexer no bolso da burguesia, algo que Doria, Wietzel, Maia e, inclusive, os governantes do PT e PCdoB eram incapazes de fazer. Os da direita por falta de propósito, e os da esquerda por falta de vontade.

Sendo assim, o povo desesperado caiu no colo do Bolsonaro por ser aquele que leva o falso mérito do auxílio emergencial, mas também porque vocalizou o sentimento dos desesperados que ainda torcem para a que a economia volte a funcionar como era antes.

Mas, notem, será mesmo que é preciso escolher entre ficar sem renda ou ficar doente? A resposta que deveria ser difundida nos 4 cantos pela esquerda é um sonoro não!

Raciocinem: o que era ou é preciso para sobreviver numa pandemia? De cara, alguns itens vem a mente: comida, máscara, álcool em gel, medicamentos, água, luz, casa, etc.

Daí vem alguns questionamentos, o primeiro é se o Brasil tinha ou tem insumos para produzir tudo isso? A resposta é sim. O segundo, se havia ou há meios de produção para se fabricar o que era necessário? Sim. Por fim, isso seria ou é suficiente para a abastecer toda a população? Claro, pois o país que mais produz alimentos e com maior quantidade de bens naturais pode proporcionar isso ao seu povo.

Além disso, havia e há mão-de-obra de sobra para elevar a produção, dado o enorme desemprego. Dessa forma, por que não concentrar toda a classe trabalhadora na produção de itens essenciais? Assim, aqueles que estavam ativos reduziriam significativamente sua carga de trabalho e se exporiam menos ao vírus, e os desempregados teriam renda com inflação baixa, já que, nessa proposta, poderia haver uma superoferta.

Em suma, por que não fizeram com que todos produzissem tudo para todos? Por que não fazer isso, ao invés de ficar esperando e apressando a volta a estádios de futebol ou de casas noturnas para que motoristas de aplicativo e pipoqueiros tenham uma renda baixíssima? A resposta esbarrava, claro, na propriedade privada dos meios de produção.

A estratégia da burguesia foi a de criar estagflação. Por regra, quanto menor a demanda, menor será o preço; porém, o setor produtivo adotou a estratégia de reduzir a produção, reduzindo seus custos e aumentando recessão. Assim, foi gerada outra lei da economia: quanto menor a oferta, maior a escassez, mais disputada será a mercadoria e maior será o preço. Com menos gastos para produzir e com maior valor de venda, mesmo com queda na demanda, os capitalistas mantiveram suas margens de lucro intactas em plena pandemia.

Um conjunto de propostas que não seriam aprovadas, mas que seria importante apresentá-las

Uma coisa que o leitor precisa ter em mente é que a política não é uma disputa de ideias, e sim uma correlação de forças. Aqui vão um conjunto de propostas que a esquerda deveria adotar no enfrentamento da pandemia, mas que provavelmente não seriam aprovadas, e, a seguir, você entenderá porque mesmo assim seria importante apresentá-las:

-Proibição da diminuição da produção: assim, nenhum item de necessidade básica estaria em falta ou seria inflacionado. E, dessa forma, o empresariado seria obrigado a manter seu quadro de funcionários;

-Redução da jornada de trabalho: Reduziria a exposição dos trabalhadores ativos ao coronavírus e, com a impossibilidade de reduzir a quantidade de bens fabricado, o patrão seria obrigado a contratar para suprir a demanda;

-Suspensão dos juros e aluguéis: Em um momento de grave crise, não é hora de banqueiro ou rentista lucrarem.

Observem que essas não são ideias que socializariam os meios de produção, apesar de ser essa a vontade do blogueiro que vos fala. Mas, muita gente dirá que tal conjunto de medidas jamais seria aprovado pelo congresso, e isso parece óbvio. Só que, se a esquerda conseguisse difundir um discurso radicalizado para a população, de que ela não é obrigada a escolher entre ficar sem renda ou se expor a um vírus, talvez isso trouxesse um medo para a burguesia, a de perder seus negócios no país por uma revolta popular, que a fizesse abrir mais os cofres. Ao invés dos R$600 de auxílio emergencial, esse valor poderia subir para R$1.000 ou 1.200, por exemplo.

Em 20 de agosto, meses após o início da pandemia, o Congresso Nacional derrubou o veto do Presidente e sancionou a lei que proibia os despejos até 30 de outubro. Se o povo estivesse radicalizado e mobilizado, talvez por medo, os políticos aprovassem essa medida antes e por mais tempo, já que a previsão de imunização por uma vacina só ocorra ano que vem.

Quem deveria levar essas propostas ao povo era a esquerda. Quem poderia acabar com a falsa dicotomia de Bolsonaro eram os movimentos e partidos populares. Mas, campo progressista preferiu outro caminho.

Frente Ampla, eleições municipais e nacos no Estado

Nesse momento de pandemia e crise, a esquerda tinha todos os elementos para fazer um grande movimento contra o Bolsonaro e suas políticas neoliberais. Mas, ao invés disso, preferiu fazer o discurso nobre da civilidade e em nome do ‘salvar vidas’. Marcelo Freixo foi mais além, participou do movimento #FicaMandetta, em defesa do ministro do DEM que, entre outras coisas, foi responsável por acabar com o programa ‘Mais Médicos’.

Mas a sanha centrista é ainda mais visível quando está sob o comando do PCdoB e da ala direita do PT com o apoio explícito a Rodrigo Maia, aquele que incrivelmente viu crime de responsabilidade de Dilma Rousseff, mas que não enxerga o mesmo de um Bolsonaro que homenageia o golpe de 64, flerta abertamente com a intervenção militar, entre muitas outras coisas.

A ideia de não radicalização começou logo no início da pandemia. O discurso do ‘Fica em casa’ suprimiu as manifestações pelo ‘Fora, Bolsonaro!’ marcadas para o dia 18 de março. Todavia, trabalhadores continuaram se aglomerando em trens e metrôs, ou simplesmente foram demitidos. Em seguida, vários atos foram esvaziados por políticos e personalidade pelo mesmo motivo, enquanto, ao mesmo tempo, Bolsonaro pregava abertamente o golpe de estado.

Por outro lado, o que se viu foram líderes de esquerda fazendo campanhas de Twitter, apoiando a Rede Globo contra os ataques do Presidente, dando suporte a um youtuber de cabelo rosa, fazendo abaixo-assinado com gente que apoio o golpe de 2016 e que deu suporte a Lava-Jato, participando da campanha verde-amarelista da Folha de SP, tentando formar coligações com pessoas altamente direitistas, etc.

Esse movimento da esquerda de não radicalizar e não se mobilizar tinha um norte, as eleições municipais, a frente ampla e espaços dentro do estado brasileiro. Ao não polarizar o discurso, os partidos do chamado campo progressista se vendem para a burguesia em troca de alianças nos pleitos de 2020, cargos nas diversas e esferas de poder.

Mas, acima de tudo, a recusa em polarizar atende um discurso pequeno burguês de classe média, o da ponderação e da civilidade. Só que a barbárie já está na falta de renda, no desalento e na desesperança do povo, o qual não se sente abraçado por um discurso progressista vazio e sem noção da luta de classes. O resultado é um povo que acaba se agarrando no discurso genocida de Bolsonaro.

Esquerda deixou o avestruz entreguista de Bolsonaro triunfar, o que enfia a cara no Macron e mostra o traseiro para Trump

Durante a crise na Amazônia, infelizmente o blog ainda estava fora do ar. Mas é importante recordar o que ocorreu naquele período para entender como, por vezes, a esquerda se deixa pautar pelo presidente de extrema-direita.

Não precisa ter mestrado ou doutorado em relações internacional para perceber o óbvio, que Bolsonaro faz uma política entreguista e de submissão inexplicável – quando se olha os interesses do Brasil – aos EUA. Começou com o atrito com a China, em seguida a briga com os países muçulmanos com a proposta de mudança da Embaixada de Israel para Jerusalém – lembrando que chineses e islâmicos (árabes e persas) respondem pela maior parte do superávit da balança comercial brasileira -, depois veio a possibilidade de uma incursão militar na Venezuela, até chegarmos à visita a Donald Trump, que incluiu abrir mão do status de país em desenvolvimento da OMC por uma promessa de entrada na OCDE, acordos para a base de Alcantara, permissão para importação de produtos agrícolas e pecuários sem contrapartida, e visita a CIA para tratar das questões da Venezuela.

Tudo isso vem alinhado com um discurso fajuto do Olavo de Carvalho, representado por um de seus pupilos, Filipe Martins, assessor de assuntos internacionais da presidência da república, de que precisamos combater o globalismo, o domínio eurasiano e nos alinhar com países que reforcem a tradição judaico-cristã ocidental. Essa balela toda serve para justificar submissão a interesses poderosos dos EUA, mediados pelo articulador da extrema-direita no mundo, Steve Bannon.

Porém, mesmo com essa atitude entreguista, por incrível que pareça, o presidente brasileiro conseguiu sair, para boa parte de seu povo, como um patriota, como alguém que defende os interesses nacionais. A pergunta angustiante que se deve fazer é como? Como? Muito simples, temos uma esquerda que se liga em valores universais, como o meio-ambiente e os índios – que são importantes, e se esquece da correlação da luta de classes – crucial para colocar em prática essas pautas – e de uma de suas principais missões, o anti-imperialismo.

É importante observar que Bolsonaro é um desprezível protofascista e que faz uma política de destruição e entrega da Amazônia – seu filho, Eduardo, já prometeu mineradoras americanas no local. Isso posto, deve-se recordar que a maior vocação da esquerda, sobretudo a marxista, é o combate ao imperialismo, o que sufoca países, sobretudo os emergentes, para extrair seus recursos naturais, rebaixando seu valor de troca, ou usar sua mão-de-obra barata, e, com isso, acelera-se o processo de exploração dos trabalhadores dessas nações numa velocidade maior do que se feita pelas elites locais. Ou seja, se toda burguesia é exploradora, a burguesia internacional é muito mais.

Mas esse processo não ocorre de supetão, é preciso primeiro dominar a política e o território de diversos lugares do mundo. É nesse momento que o imperialismo, além de mega explorador, é destrutivo. Aí que uma esquerda ligada em valores só consegue ver, por exemplo, um ditador sanguinário em Muammar al-Gaddafi. A guerra civil na Líbia que, hoje se sabe, teve apoio direto dos EUA, depôs e matou o antigo tirano. No lugar, o país que tinha relativa estabilidade política e social, agora é controlado por extremistas islâmicos e vive embates civis constantes. Ou seja, para retirar o controle dos inimigos, os americanos instauram o caos. Exemplos similares se observa no Egito, Venezuela, Afeganistão, Iraque, Líbano, Ucrânia e Turquia, onde o dedo imperialista desorganizou e desestabilizou a política interna, causando imensas crises sociais e econômicas, e às vezes sem sucesso em sua missão. Mas o maior exemplo de destruição foi na Síria. Para enfraquecer o maior aliado da Rússia, Obama armou os rebeldes sírios que se juntaram com o que restou da Al-Qaeda e os sunitas iraquianos – que perderam o poder após a queda de Sadam Hussain- para formar o Estado Islâmico e tentar derrotar o também déspota Baschar Al Assad. O dirigente sírio que chegou a perder quase todo território, hoje, já retomou mais de 60% com a ajuda dos russos, e é óbvio que todo o conflito deixou um enorme rastro de destruição. O país árabe, que vivia relativa estabilidade, perdeu metade da sua economia, além de espalhar milhares de refugiados pelo mundo.

Mesmo com o imperialismo a representar uma terrível ameaça, no meio da crise das queimadas na Amazônia, pela preservação ambiental e em oposição ao bolsonarismo, parte da nossa esquerda resolveu abraçar… Macron. O líder francês aproveitara o momento para incendiar o discurso ambientalista da esquerda pequeno-burguesa e propor discutir uma governança internacional na floresta amazônica. Vejam só, o presidente da França queria um controle global de uma parte do território brasileiro do tamanho da Europa Ocidental e parte dos nossos representantes esquerdistas saíram em sua defesa. É obviamente uma falta total de leitura política e uma ótima oportunidade para o governo bolsonarista lançar a cartada patriótica. Aí ficou fácil, era só vir com a mesma conversa fiada das ONGs, da mídia, do globalismo, etc, etc, etc. Ou seja, Bolsonaro, o mais entreguista de todos, ganha da esquerda o status de nacionalista em uma crise que ele mesmo provocou.

Nesse caso, havia alguma forma de se opor ao mandatário brasileiro sem se deixar capitular ao imperialismo? Sim! Era só trucar a cartada patriota dele. E, como? Para responder essa pergunta, basta recordar os capítulos dessa celeuma.

No período pré e pós eleitoral, Bolsonaro prometeu acabar com o Ministério do Meio-Ambiente e anexa-lo ao Ministério da Agricultura. Alertado por representantes do agronegócio de que isso poderia prejudicar as exportações brasileiras, recuou. Ainda propôs acabar com reservas indígenas e explorar mineração na Amazônia, além questionar os dados desmatamento e demitir o diretor do INPE. Isso tudo, é claro, incomodou ambientalistas pelo mundo todo, o que prejudicou a imagem do país no exterior, a ponto do Blairo Maggi, produtor de soja e constantemente acusado desmatador – chegou a ganhar o prêmio motosserra de ouro do Greenpeace, reclamar que a fama do Brasil de não preservacionista do novo governo estava prejudicando seus negócios.

O discurso da ecologia é justo, do ponto de vista da esquerda, pois escancara ainda mais o caráter destrutivo do capitalismo, que na sanha da acumulação não é capaz de proporcionar desenvolvimento com preservação ambiental. Entretanto, também é muito usado quando países querem boicotar ou sabotar outros. O meio-ambiente é uma causa apaixonante para muitos, comove celebridades e faz com que pessoas doem dinheiro. Logo, qualquer aventura internacional encontra nesse discurso um ativo político muito forte.

No momento que a crise das queimadas se agravou, que o dia virou noite em São Paulo, Macron deve ter pensado: agora é a hora! Ele que enfrenta uma grave crise de popularidade graças a sua política neoliberal semelhante a de Paulo Guedes,  poderia usar um possível boicote ao setor agroexportador brasileiro para obter apoio dos produtores rurais franceses e dos partidos verdes de esquerda na próxima disputa eleitoral, que provavelmente será contra a extrema-direita de Marine Le Penn.

Após o discurso duro do líder francês dirigido ao Brasil, Bolsonaro retrucou chamando sua mulher de feia e dizendo que o país europeu tem uma postura colonialista. Nesse último aspecto (o da política colonizadora), ele está certo, só que o que o presidente brasileiro faz? Terceiriza a defesa da soberania nacional para Trump.

É importante ressaltar que toda essa bagunça ocorreu dias antes do encontro do G7, onde é possível observar, logo nas primeiras horas, Macron e Trump conversando separadamente e muito provavelmente sobre a Amazônia. Obviamente, o estadunidense não fez isso de graça, a opção feita pelo governo do Brasil de um alinhamento automático com a nação norte-americana renderá muitos frutos a seus interesses. E, nesse caso, é bom sempre lembrar que Eduardo Bolsonaro, indicado a embaixador nos EUA, prometeu uma mineradora americana em Raposa Serra do Sol, onde há uma reserva indígena – um tipo de demarcação tão atacada por Jair Bolsonaro – Yanomami próxima a Venezuela, onde os dois países quase fizeram uma invasão militar.

Isso tudo sem contar que a ameaça de boicote ao setor agroexportador brasileiro, o que representa a maior participação no PIB, ainda não foi resolvido. Parlamentos como o da Áustria ameaçam o acordo Mercosul/União Européia e fundos de investimento estão ameaçando tirar o Selo Verde do Brasil. Ou seja, Bolsonaro provoca uma crise, não resolve, apresenta sinais de entrega da Amazônia e outras coisas mais para os americanos, e ainda sai com fama de patriota com um discurso contra Macron e os inimigos internos do pátria.

Naquele momento, a esquerda deveria trucar a cartada bolsonarista. Exigir que presidente resolvesse os quatro aspectos da crise: o problema das queimadas, impedindo uma intervenção estrangeira no território nacional, sem prejudicar a economia e nem entregar nada aos EUA. Se Bolsonaro resolvesse, ótimo, como não iria, seu governo se enfraqueceria e poderia haver um encaminhamento para sua derrubada. Além disso, é papel intransigente da luta dos trabalhadores rechaçar qualquer tentativa ou especulação de intromissão externa nas fronteiras brasileiras.

Todavia, a esquerda tomada por valores como o feminismo – que é justo, porém não pode ser superior ao anti-imperialismo e ao ímpeto de impedir uma tomada de boa parte do território nacional – preferiu pedir desculpas para Brigitte Macron por ter sido chamada de feia. Bolsonaro faz mal a Amazônia, só que a solução não é o dedo imperialista europeu, e sim o ‘Fora, Bolsonaro!’, ‘Fora, Macron!’ e Fora, Trump!